Arquivo de Outubro de 2009

Crônica da semana - Academia do espírito (*)

Vera Pinheiro
Cada um ora segundo a sua devoção. Orar é conversar com intimidade com alguém a quem amamos muito e que nos ama mais ainda! Podemos ficar à vontade quando oramos, pois é o mesmo que estar entre amigos que o são desde e para sempre, numa relação de máxima confiança e muito amor. É em profunda intimidade com o poder divino e com a plenitude do meu ser que oro.

Não faço cerimônia para orar. Sequer preciso estar sozinha ou em completo estado de relaxamento. Mal comparando, posso dizer que tenho uma conexão banda larga com as divindades, o acesso é rápido! Se orar fosse como acessar a internet, eu diria que meu computador, ou melhor, meu coração, está permanentemente ligado e a conexão é instantânea e veloz! Basta um clique, ou seja, basta uma oração, e em qualquer lugar. Como acontece quando escrevo, dependendo do texto – ou do conteúdo das minhas orações – me exijo mais concentração e algum isolamento, mas consigo orar a toda hora, independentemente do meu estado de ânimo e de quem esteja comigo. Não tiro Pai/Mãe da tomada, por assim dizer. Eles não saem do ar e dou graças por isso, mas não esqueço de fazer revisões, reciclagens e aperfeiçoamentos da minha espiritualidade.

Em se tratando de oração, acho que tenho alma de criança, que se expressa com simplicidade, nenhuma linguagem rebuscada e “puxa a saia” da Mãe quando quer ou necessita de algo. Sorrio, choro, me emociono muito quando oro, e posso sentir o colo da Mãe me aconchegando quando a Ela recorro, seja para pedir ou para agradecer. Minhas orações são espontâneas e sem requinte na comunicação. Do jeito que eu falar, sou ouvida, portanto, preciso cuidar do que estou pedindo, porque sei que pode se realizar!

A oração é uma espécie de academia para meu espírito, que se fortalece e robustece a minha fé. Antes de abrir os olhos, dou bom dia ao meu anjo da guarda, peço “Benção, Mãe”, “Benção, Pai” e agradeço à vida. Orar é, também, inundar-se de gratidão pela existência, abraçar a vida do jeito como ela é, sentir-se feliz por tudo o que há para viver. Orar é não se desgrudar da própria essência divina, desde o acordar até o adormecer, e entregar-se a Pai/Mãe com confiança.

Orar é estar em contato com quem sabe tudo de nós, e isso dispensa longos, demorados e complexos relatos. “Mãe, Tu sabes do que preciso” é o bastante para Ela entender. “Pai, faça-se segundo a Tua vontade” é confiar nos elevados desígnios que Ele tem para nós, ainda que não compreendamos. “Proteja-me” é um pedido que nos põe em segurança. “Esteja comigo”, uma frase tão curtinha e fácil, é dar a mão para quem está sempre disposto a nos alcançar ajuda e jamais nos abandona. Orar nos põe caminhando sem vacilar, e nosso caminho deve inspirar-se no que Deus Pai/Mãe nos ensina pelo exemplo.

Ao orar abrimos as portas que nos levam a quem vem ao nosso encontro todos os dias, em todas as coisas, em todos os fatos e em todas as pessoas. Ao orar descortinamos as vendas que nos impedem de ver com clareza e sabedoria e, então, reconhecemos que tudo é luz (e o que não é, pode vir a ser pela transmutação que a fé e o amor realizam), compreendemos que tudo é sagrado, porque do sagrado procede, reverenciamos tudo e agradecemos por tudo! Ao orar nos enchemos de contentamento, e já não pedimos tanto, na intenção de suprir o vazio interior. Para orar não precisamos de pose, boa roupa nem da melhor aparência e, sim, nos despirmos da vaidade, do orgulho e dos rancores para ficarmos nus diante de nós, assumindo o que inteiramente somos. E o que somos, senão filhos e filhas muito amados de Deus Pai e da Deusa Mãe, que nos amam a ponto de não desistirem de nós, mesmo se Os ignoramos em nossa vida, que, é bom lembrar, não nos pertence!

A vida é um bilhete de viagem, uma passagem, apenas. Não somos os donos da companhia aérea, se a vida fosse um avião. Não somos os donos do hotel, mas hóspedes, transeuntes da vida. E nossos anfitriões, que nos oferecem estadia neste plano de existência, definitivamente, são muito generosos, pacientes, gentis e amorosos. Se não fossem, não esperariam tanto tempo para que nosso coração fosse dado a Eles em gratidão, em oração a cada minuto. Bem, não preciso exagerar, dizendo que devemos orar a cada minuto e transformar cada gesto, cada palavra, cada instante em oração. A gente só deve fazer isso quando respira.
(*) Crônica publicada na edição de 31 de outubro e 1º de novembro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

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Enfim, o sol!

Vera Pinheiro
Não imaginas o meu contentamento hoje cedo, quando vi o dia ensolarado depois de semanas de chuva e neblina! Já estamos virando sapos em Brasília com esse tempo tão avesso ao clima seco, de que eu gosto muito! Aplausos para sol, que, porém, não está dando garantia de permanência. Já fechou a cara de novo, mas deu para curtir, ao menos um pouquinho.

Sol renova mesmo a energia da gente! Fui saltitante e com a maior disposição para o trabalho! Ao meio-dia almocei num self-service e já estava de saída quando um moço – bonito que só! – pediu licença para sentar-se à mesa.

- Claro, fica à vontade, mas já estou de saída. E não é pela tua chegada…
- Eu entendo, fique à vontade também.
(Eu falando tu; ele, falando você)
- Por favor, pode passar a jarra de suco?

Estendi a mão e coloquei a jarra mais próxima dele, advertindo-o de que o suco estava doce demais! Não gosto de muita doçura, me enjoa, mas só quando se trata de sucos, sobremesas e afins. E não sirvo um homem há tanto tempo que a memória nem pode alcançar.

- Também não gosto, respondeu ele, complementando: “Chega a minha vida, que já é doce”.

Bonitinho… Pena eu estar de saída. Nada, não. Só para conhecer alguém que parece otimista e de bem com a vida. Acho um saco a gente sentar à mesa para uma refeição em paz e chegar alguém desfiando lamúrias. Isso acontece com mais frequencia do seria aceitável. E se estiver na companhia de Camila, então, a coisa é pior. Ela é psicóloga, mas nas refeições costuma estar de folga dessa condição. É Camila dar aquele olhar compreensivo, e logo a criatura puxa um rosário de lamentos, seja onde for.

O horário das refeições é sagrado! As pessoas não deviam falar de negócios, de trabalho, de assuntos tristes nem discutir relação. Aliás, discutir relação é uma chatice, não tenho paciência. E gente pessimista, de mal com a vida, com o coração empedernido a gente deve acolher, claro, mas podiam escolher outro horário, não o das refeições. A comida nem desce!

Bonito moço. Nada, não. Já me aposentei da lida… E tão cedo não vou almoçar de novo naquele restaurante. Eu estava de passagem apenas. Não precisarei ouvir “você vem sempre aqui?”. O repertório de alguns homens não muda, se transmite do avô para os netinhos, coisa de louco! Depois, quando a gente dá uma resposta cretina, eles ainda acham ruim…

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Oremos!

Vera Pinheiro
Tu gostarias de andar ao lado de alguém que nunca fala contigo? Que ignora completamente a tua presença? Que não está “nem aí” para o que dizes, aliás, não te escuta, não te vê, não te sente? Eu não gosto, mas sou humana como tu és, e a gente se enche desses “não gosto disso, não gostei daquilo” e se aborrece demasiadamente.

Porém, vê a generosidade de Deus Pai e da Deusa Mãe: mesmo se Os esquecemos, Eles não nos esquecem, e se não falamos com Eles, ainda assim nos abençoam e zelam por nós. Tudo nos dão em profundo amor, mesmo se não retribuímos. E cabe aqui uma frase que saltou aos meus olhos, outro dia: “Deus, sem ti, continua Deus. Tu, sem Deus, o que serás?”.

Se continuarmos a ignorar a presença divina em nossa vida, Deus Pai/Mãe continuará a nos amar, porque tem generosidade, compaixão, misericórdia e amor incomparáveis e não negocia o amor que tem por nós, então não funciona o toma-lá-dá-cá, não há mercantilismo no amor divino.

Se demonstrarmos nosso amor por Eles e nossa extremada gratidão, Deus Pai/Mãe não vai nos amar mais do que já ama, isso é impossível, porque já é o máximo, mas nós nos sentimos muito mais felizes, tomados de gratidão e de amor por Ele, por tudo, por todos e pelo todo de que fazemos parte. Nós nos preenchemos de tamanho amor, que tudo ganha beleza e significado.

Continuamos a enfrentar desafios e alguma dificuldade, mas não sofremos por isso. Tudo se torna aprendizado, pelo que agradecemos. Nenhuma pessoa nos prejudica, porque vislumbramos nela um ser sagrado. Nada perturba o nosso espírito, porque nos envolvemos numa aura de paz, e tudo ao redor é pacífico, belo, amoroso e do bem!

Podemos alcançar isso? Assim, num repente, podemos aprender tanto, a ponto de transformarmos o modo como vemos o mundo e as pessoas? Eu digo que sim, embora cada um tenha o seu momento, o seu tempo e o seu ritmo de aprendizado. Não posso nem sei dizer a cada um como se conectar com a essência divina que habita em todos, o que posso fazer é mostrar a chave que encontrei: a oração.

Para mim, orar é botar o espírito para malhar! E a oração é a “Academia do espírito”, título da minha crônica da semana, que estará aqui no blog e no jornal A Razão, de Santa Maria, RS, neste sábado! Oremos!

Adicionar comentário Quinta, 29 de Outubro de 2009 às 19:54 Vera Pinheiro

Ignorância

Vera Pinheiro
Que ignorância foi aquela do governador do Paraná, Roberto Requião?! Estou pasma!!! Durante uma reunião com secretários e auxiliares, transmitida pela TV Educativa, Roberto Requião disse que o câncer de mama em homens deve ser consequência de passeatas gay.

Como é que um homem público, chefe do governo de um estado da importância do Paraná é capaz de proferir uma ignorância dessas? Copia e cola o link abaixo e vê a cena.

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1148831-7823-GOVERNADOR+DO+PARANA+DA+DECLARACAO+POLEMICA,00.html

O secretário da Saúde Gilberto Martin, chamado a falar em seguida, parecia constrangido e tentou amenizar a bobagem do governador, mas teria sido melhor ficar calado. Foi tempo perdido fazer de conta que Requião quis chamar a atenção para a doença, que atinge, sim, os homens. Só piorou ao tentar amaciar o que disse Requião, como se ninguém tivesse ouvido ou como se quem ouviu se enganou.

Câncer atinge as mamas de mulheres e homens, sim. Geralmente, acomete o homem de idade mais avançada, sendo mais freqüente na faixa etária de 50, 60 anos de idade. O pai dos meus filhos morreu, aos 59 anos, de câncer na mama. Foi há 11 anos.

As mulheres são instruídas à realização do auto-exame, mas os homens, por desconhecimento, não se previnem nem fazem acompanhamento periódico como nós fazemos. Isso atrapalha, quando não impede o diagnóstico precoce, fundamental ao sucesso do tratamento.

Câncer de mama ou qualquer outro órgão não pode ser inspiração para piadinha de mau gosto, que desrespeita o ser humano.

Não bastou a discriminação aos homossexuais, que foram acusados de serem disseminadores da AIDS, tendo-se comprovado depois que a doença independe de orientação sexual e que eles não são o único grupo de risco? Serão agora também responsabilizados pela propagação do câncer? Que absurdo! Lamentável, infeliz e desrespeitosa a manifestação do governador Requião.

Adicionar comentário Terça, 27 de Outubro de 2009 às 21:36 Vera Pinheiro

Adriana Garrido

Vera Pinheiro
Ah, que maravilha abrir os olhos antes do sol raiar e constatar que não precisa de nenhuma pressa, pois hoje é feriado! Oba! É Dia do Servidor Público, que vale para mim também, ainda que seja uma condição temporária. E que bom olhar para a próxima semana e ter mais feriadão no fim de semana emendado com a segunda-feira. De novo! Vou copiar a preguiça do gatinho Shiny, aqui ao meu lado, colado no computador.

A Coordenação de Relações Públicas da Presidência da República proporcionou um momento musical aos servidores na última sexta-feira. Ao meio-dia, no espaço ao lado dos restaurantes, teve a apresentação da cantora Adriana Garrido.

Eu almoçava com minha filha quando fomos interrompidas por uma jovem senhora, que ia às mesas distribuindo um cartão de visitas para contato e contratos de shows.
- Sou mãe da cantora que está se apresentando lá fora.
- Ah, legal, já vamos vê-la.

De onde estávamos podíamos ouvir a voz potente da cantora, e estranhamos que a mãe estivesse fazendo aquele trabalho, mas, enfim, “mãe é mãe”, a gente sabe. Provavelmente estava dando uma força, coisa bem a cara de mãe.

Que voz!, a de Adriana Garrido, que eu não conhecia. Deve ter uns 30 e poucos anos, comentei com Camila.

Demos uma apressadinha nos garfos, renunciamos à sobremesa e fomos até o local onde os servidores estavam reunidos. Para minha surpresa, a cantora era apenas uma menina, mas a voz dela, de profissional experiente! Numa calça jeans colada ao corpo, blusinha solta por cima e tênis prateado, a menina dava um show! Fiquei boquiaberta, e logo eu estava batendo palmas como uma tiete encantada!

Enquanto isso, eu observava a mãe, que prestava assistência à filha (logo lembrei daquilo que dizem: “mãe é tudo igual, só muda o endereço”… e o cabelo, claro). Sandra, esse é o nome dela, vendia o CD, fotografava, fazia coro e, de vez em quando, soprava instruções no ouvido da menina. “É minha mãe”, disse a jovem ao público. E não faltou um gaiato para acrescentar: “Fala aí, minha sogra!”.

Fiquei muito bem impressionada com Adriana Garrido, estudante de apenas 16 anos, que canta desde os seis, se apresentou no programa do Raul Gil aos 12 e tem vídeos no You Tube. Essa menina vai longe! Tem um vozeirão fantástico! Sua voz dança entre os graves e os agudos com a maior habilidade e, fosse isso pouco, ela é bonita, simpática e comunicativa. Para me garantir, comprei o CD (caseiro, mas com um bom repertório, incluindo duas canções de sua autoria) e peguei o seu autógrafo. Um dia ele vai valer ouro! Boto fé!

Confere dois momentos dela no “Jovens Talentos” do Raul Gil:

http://www.youtube.com/watch?v=JSRiAljb0wY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=t_WES0re91g

Adriana Garrido Adriana Garrido 1 - Adriana Garrido 1 e a mãe Adriana Garrido 2 - Adriana Garrido 2

4 comentários Segunda, 26 de Outubro de 2009 às 10:33 Vera Pinheiro

Trapalhadas

Vera Pinheiro
Às vezes, eu me enrosco nos fios e faço a maior trapalhada! Mas, céus, é compreensível! Mesmo usando conexão sem fio… há fios demais! O do telefone se conecta com o do modem e com o filtro (é isso?) e todos se ligam ao computador, que tem mil fios para todos os lados. Resultado: hoje me enrolei nos fios, desconectei o modem e fiquei fora do ar. A essa altura, já tinha mandado um torpedo desesperado para o cara que me assiste nessas horas rudes, Fabio Milhomem (e ele tem – mesmo! – de ser mil homens para aguentar minhas demandas). Como ele sabe que, antes de qualquer tentativa de conserto, eu grito por ele, costuma dar um tempo para eu me acalmar e só depois retorna o recado. Antes que ele o fizesse, Camila me socorreu e consertou a esculhambação que fiz com os fios, não sem antes de – claro! e com razão – me admoestar porque tiro os plugues do lugar e não sei o que conecta onde. Ela é bem mais atenta a isso do que sou. Bem, alguém tem de ser, e, nesse caso, ela é.

Minha filha é mais atenta também quanto ao lugar das chaves. Nunca sei onde coloco as minhas e passo o maior aperto, procurando até dentro do lixo para encontrá-las. No sábado, perdi a chave do carro. Tinha de sair e… cadê a chave? Revirei tudo! Pedi ajuda à diarista – “Para tudo! Vamos procurar em todos os lugares!” – e chamei 200 vezes por São Longuinho. Fiquei nervosa, e tentava reconstituir todos os meus passos desde a última vez em que toquei na chave. Cadê?!, porra! Estava indignada comigo, pois esse é um fato recorrente. Entro em casa distraída, deixo a chave em qualquer lugar e depois não a encontro.

- A senhora deixou em alguma gaveta?, perguntou a diarista, tentando me ajudar.
- Não abri nenhuma gaveta!, respondi, convicta…pero no mucho. Sei lá se abri alguma gaveta de ontem para cá… nem quantas abri!
- Dentro do seu armário!
- Claro que não! Jamais deixaria a chave do carro dentro do meu armário, ora, bolas!
- No banheiro!
- Óbvio que eu não deixaria a chave do carro no banheiro, menina! Cada uma…
- No lixo!
- Já olhei. Não está.
- No seu altar!
- O que a chave estaria fazendo no meu altar?!
- Na sua bolsa!
- Já revirei!
- A senhora não deu descarga na privada, deu?
- Dei, mas espero que não com a chave.
- O gato comeu!
- Ah, quê isso!
- O cachorro pegou!
- Nem!
- Nos bolsos!
- Minha roupa não tem bolsos.
- Deixou dentro do carro!
- Também não. Já olhei.
- Engoliu! – Com essa eu quis escalpelar a diarista, mas me contive. Mocinha desaforada!

Cata daqui, cata de lá, mexe aqui, mexe acolá, e a casa, uma bagunça! Que merda, sempre faço isso e nunca aprendo a colocar as chaves no lugar certo, e ele existe! Duas horas depois, suada de tanta procura, eis que abro o meu armário e…tchan-tchan-tchan-tchan… estava lá! Mas, gente, como é que um molho de chaves tem pernas e vai parar dentro do armário?!

E a minha cara de besta, olhando para a diarista?
- Achei!
- Onde estava?
- No armário.
- Eu não disse?

Odeio a frase “Eu não disse?”. Igualzinha à minha mãe, quando corcoveava em pelo sobre a razão.

Sou quase perfeita, só preciso aprender a colocar as chaves no lugar certo e a não me enrolar nos fios.

Adicionar comentário Domingo, 25 de Outubro de 2009 às 14:36 Vera Pinheiro

Crônica da semana - Mulheres em descoberta (*)

Vera Pinheiro
Estou acostumada a almoçar sozinha, e encaro bem as refeições sem companhia… Nem reclamações. O tempo é escasso, o horário de intervalo no expediente é imprevisto, não chamo alguma amiga sem prévia combinação, a filha tem seus compromissos, o filho mora em outro Estado e não há companheiro para sentar-se à mesa comigo. No início, me sentia desvalida por não ter alguém que compartilhasse as minhas refeições de segunda a sexta-feira, mas, depois, encontrei prazer em me dedicar à observação das pessoas no meu entorno e como elas se comportam umas com as outras. Tornou-se, posso dizer, divertido. E me habituei à solidão de tal modo que, hoje, chego a evitar pessoas naquele momento de estar comigo em exclusividade. Sublimei, enfim, e estranho quando alguém achega uma cadeira e pede licença para dividir o espaço.

Outro dia, porém, escolhi lugar junto de uma senhora que aparentava uns 35 anos, pouco mais, talvez. Ela estava sozinha, exatamente como eu. Pedi licença e logo depositei sobre a mesa um pratinho com generoso pedaço de pudim de leite condensado, minha sobremesa predileta. Sempre que tem esse doce, que me remete a lembranças da casa de minha mãe, sirvo-me dele antes da refeição principal. No self-service, pudim não esfria! Melhor reservar logo um pedacinho, ao menos, e se não o faço, o garçom me lembra de fazê-lo, sabedor da minha preferência. Isso é o que dá ir almoçar sempre no mesmo restaurante.

Pensei em comer quieta, degustando em paz o meu pudim, mas qual o quê! A mulher puxou conversa a partir do doce, dizendo que adoraria não estar de dieta para saborear um pedaço, mas resistiu bravamente quando cutuquei seus brios, oferecendo-lhe um naco, que rejeitou com delicadeza. Foi a senha para que ela começasse a falar dos filhos, dois adolescentes. Já vi esse filme!, pensei, mas não lhe fui indiferente. Ouvi-a atentamente e tudo me parecia igual ao que experimentei: os filhos crescendo e a vida pessoal ficando para trás, as preocupações e os desvelos, os planos adiados e os sonhos que não se realizaram, as viagens que queria fazer e não fez, os problemas com babás e domésticas, o coração apertado ao sair de casa para trabalhar, deixando os pequenos em mãos de desconhecidas, orações para que tudo estivesse bem no retorno ao lar, e aquele terceiro expediente insuportável até para a mais aguerrida das mortais.

Entre uma garfada e outra, ela me contou sua vida, e vi ali uma mulher replanejando os dias para a fase seguinte à adolescência dos filhos, e ela ainda não descansou das infindáveis idas de lá pra cá e daqui pra lá aos sábados, levando a filha a todas as festas de 15 anos da turma do colégio – e as meninas fazem aniversário praticamente todos os sábados de cada mês. Haja paciência e ânimo para levantar depois de um breve sono e fazer a entrega das amigas em suas casas, madrugada adentro, isso quando elas não acampam no quarto ao lado e ficam conversando até irromper a madrugada. Com os meninos não é muito diferente. Se não há festas, há partidas de futebol, encontros da galera e baladas que deixam as mães de olhos abertos, coração aos pulos e olheiras alcançando a boca.

Eu a examinava, tentando descobrir sua idade, enquanto ela relatava em detalhes histórias que eu conhecia. Podia entender cada palavra que dizia, mas me comportei como quem já sabe o final de um filme: não vale contar para quem ainda não assistiu e está na porta do cinema. “É assim, eu me recordo” era o máximo que eu expressava, sem imitar o que minha mãe dizia: “Filhos criados, trabalho dobrado”, e me negava a aceitar isso como verdade, e não era.

Por fim, a mulher disse uma frase que denunciou quantos anos tinha: “Com o tempo, eu me tornei tão impaciente!”. Chegou aos 50. Dito e feito! Nessa idade, não é impaciência, é que a gente realmente está cansada de muita coisa, atura pouco e não quer se incomodar com nada! Tudo o que se quer é centrar o foco na própria vontade, dar-se ao luxo de escolher, recusar, mudar, fazer e acontecer por conta e risco, e ninguém para exigir demais de nossas forças. A mulher se recolhe para se expandir, fica mais seletiva, busca satisfação, qualidade, diz “Não” e “Sim” sem culpa nem arrependimento, se entrega apenas por querer, aprende o silêncio e a voz, a presença e a ausência, e não faz concessões em prejuízo da felicidade. Fica até mais bonita, apesar das rugas, porque está bem em si mesma, inclusive quando está sozinha à mesa ou na cama. Deita, dorme e vive a paz da sua boa companhia.
(*) Crônica publicada na edição de 24 e 25 de outubro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

Adicionar comentário Sábado, 24 de Outubro de 2009 às 06:40 Vera Pinheiro


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