Arquivo de Novembro de 2009

O abraço

Vera Pinheiro
A gente sabe a importância e o valor de um abraço! Meus gatinhos Happy e Shiny sabem disso também. Eles estão sempre juntinhos, seja numa humilde caixa de papelão ou sobre um lençol de cetim. Com isso eles me dão uma valiosa lição de afeto, que supera todos os solavancos e permanece, independente das circunstâncias.
Que a semana seja feliz, com muitos abraços! Abracemo-nos!

101120092264 - 101120092264 141120092335 - 141120092335 Eu amo esses dois!

3 comentários Domingo, 29 de Novembro de 2009 às 23:32 Vera Pinheiro

Novo dialeto

Vera Pinheiro
Eae, kra, blz? Tdu lgl? To d boa tbm, em ksa, cmu xempli. KD v6?

Ai, ai, cadê um tradutor simultâneo que facilite a compreensão do novo dialeto que grassa na internet? E não me digam que é coisa de guri de 12 anos, porque tem muito marmanjo trucidando a linda e boa língua portuguesa. Confesso que se eu tentar escrever desse jeito levarei o triplo do tempo de que preciso para digitar umas mal traçadas linhas, como se dizia no tempo das cartas manuscritas – aquele era um bom tempo, sim (pelo menos as pessoas escreviam corretamente, ainda que demorassem a chegar as correspondências).

Não que eu não erre, claro, mas me esforço para honrar os meus longos anos de estudo e prática da escrita. Ontem mesmo, ao enviar uma mensagem, cometi um erro de concordância de arrepiar os pelos! Pelos, agora, sem acento. Nem tentei consertar a situação! Vai que a pessoa nem percebeu. Apostei na minha boa sorte! Mas que foi um micão, isso foi! Aliás, nunca contei que integro a equipe de um site e, junto com outras pessoas, sou responsável pelo conteúdo e encarregada da revisão dos textos. E sempre digo a quem faz parte do grupo que a correção depende muito da nossa vigilância permanente. Basta escrever que o erro está de tocaia, esperando um tropeço nas letrinhas.

Falando em tropeço – tipo nada a ver com o assunto - faz tanto tempo que não entro no MSN que cheguei a esquecer qual era a minha senha. Em breve providenciarei outra, até porque ando sem tempo de tc c/ vc. Ops, de conversar na internet. Enquanto não me habilito de novo para o MSN, aproveito para aprender o seu dialeto. Não é fácil. Ademais, eu adoro um bom texto. Bem escrito, sem erros… nem precisa ser exatamente bonito. Como os homens, mal comparando. Vamos ao glossário, então. Só estou tentando saber por que colocaram um “w” no fim de palavras, como em iradow, tipow, valew, manerow. Um dia, hei de entender. Falow?

Blz (beleza), koeh (qual é), kra (cara), Ksa (casa), lgl (legal), mlk (moleque), aki (aqui), qndu (quando), Ccu (como), xim (sim), krac (caraca), eh (é), xempli (sempre), ms (meus), tdu (tudo), q (que), d (de), kd (cadê), v6 (vocês), cntgu (contigo), tbm (também), fla (falar), pq (por que).

Adicionar comentário às 11:56 Vera Pinheiro

Crônica da semana - Balanço de fim de ano

Vera Pinheiro
Em um mês termina este ano ou, em uma perspectiva mais esperançosa, começa outro. É hora de fazer um balanço do que foi a vida em 2009! Antes de fechar o ciclo, vamos revirar os armários para tirar os excessos, limpar gavetas, remexer os guardados para ver o que não tem proveito, o que não foi nem será usado, o que estagnou e deve ser descartado. Roupas, sapatos e acessórios são submetidos a uma vistoria geral e o que ficou fechado por 12 meses pode perfeitamente ser doado. Não tenhas pena de passar adiante peças que não foram bem aproveitadas. Abre espaço para o novo, libera o que for entulho e dispensa apego demasiado a lembranças. Mesmo as boas recordações não devem ser exaustivamente revividas, pois este é um novo tempo, e meramente recordar, sem viver o agora, é se aprisionar ao ontem, que não voltará. Lembra-te que nem mesmo as cenas da melhor felicidade têm reprise. Passaram, e é preciso construir novas vivências. Esse trabalho inicia já!

Esquecer as dores é o primeiro passo. Desapega-te do que te faz sofrer e liberta quem te magoou. É possível que a pessoa nem se lembre do mal que te causou, então, por que mantê-la no teu pensamento, cutucando as feridas do coração? Sublima, deixa pra lá, executa um esforço sincero por não lembrá-la e afasta de ti o que a traz de volta, seja uma foto, uma carta de amor ou de despedida, uma mensagem arquivada no computador, o telefone mantido na agenda. Esquecer é um perdão que se dá com a memória e isso gera paz, mas é preciso perdoar a si também pelas experiências dolorosas e não se martirizar por não se ter desviado de circunstâncias que resultaram em lágrimas e sofrimento. Observa que em tudo há um aprendizado, e às vezes ele se manifesta pelo inevitável. Perdoa de verdade e envolve quem protagonizou os teus desgostos em um sentimento que misture compaixão e indulto. Deseja, a seguir, que a pessoa seja tão feliz quanto almejas ser, pois ninguém consegue trilhar o caminho da ventura sem que, antes, tenha perdoado a todos por gestos que amarguraram, palavras que entristeceram e fatos desagradáveis que provocaram. Apagadas as reminiscências infelizes, o perdão é bálsamo que à paz conduz.

Passeia os olhos nos teus planos e vê quais tiveram sucesso e os que não deram certo. Comemora as tuas vitórias e sejam elas incentivo para futuras realizações. O que julgas ter sido uma derrota se torna valiosa oportunidade de crescimento. Depois avalia se não terá sido, em vez de insucesso, mero adiamento. Cada coisa tem seu tempo apropriado, e talvez o teu projeto – ou sonho – esteja sendo maturado pela vida para o seu momento de acontecer. Refaze os empreendimentos que valem a tua energia e abandona o que não merece o teu empenho. Confia que aquilo que mereces e é bom haverá de se cumprir.

Visita os teus relacionamentos e como procedeste diante deles. Sem calculares o que deste nem o que ganhaste, tampouco o que perdeste, seleciona os melhores acontecimentos de que participaram amigos, familiares, pessoas que tu amas e que te amam, e te sentirás invadido de singela alegria, aquela que faz brotar sorrisos de contentamento à simples menção do nome de alguém ou de um lugar. Contempla igualmente os dissabores, porém resguarda-te dos ressentimentos, que corroem a alma. Não esperes dos que estão no teu convívio a perfeição que não encontras em ti. Acolhe todos como são e não pesquises seus defeitos ou encontrarás mais do que procuras, inclusive no que és. Costumamos rechaçar nos outros o que condenamos em nós, pois eles nos espelham. São reflexos, feios ou bonitos, do que somos e o que amamos neles é o que expressamos. Assim, o que mais detestamos no que é do alheio precisamos consertar em nossa identidade.

Feita a vistoria do que viveste no ano que se encerra, é chegado o instante de pousar neste momento. Pergunta o que queres viver a partir de agora, define com clareza as tuas escolhas e te prepara para o irremediável êxito que alcançam aqueles que sabem aonde querem chegar e se municiam de vontade, coragem, otimismo, determinação, fé e disposição para o trabalho, porque, afinal de contas, de graça e sem cobrança, só as bênçãos divinas que te acompanharam em mais um ano. Por fim, sê agradecido por tudo o que viveste. A gratidão nos leva a andar de mãos dadas com o próprio destino, e em harmonia com ele a vida flui. A cada ano que finda ergue as mãos em graças e a todo ano que entra dá a tua mensagem de boas-vindas, na confiança dos felizes dias que virão. E eles vêm!
(*) Crônica publicada na edição de 28 e 29 novembro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

Adicionar comentário Sexta, 27 de Novembro de 2009 às 23:41 Vera Pinheiro

Ouvir os bichos

Vera Pinheiro
Eu falo com os meus gatos e eles falam comigo. Verdade! A comunicação é perfeita, mas é claro que não se compara ao diálogo entre humanos. Apesar das nossas diferenças, conseguimos nos entender perfeitamente – e falo das minhas conversas com Happy e Shiny.

Happy, o gato preto, me diz quando quer sair e Shiny, o branquinho, me chama se quer voltar para dentro de casa. Pedem comida, que eu troque a areia deles, agradecem quando lhes faço um agradinho e ambos ficam quietinhos sobre a mesa do computador enquanto escrevo. Eles sabem que é hora de silêncio, então.

Posso compreendê-los e eles a mim também. Sei do comportamento deles, se estão com algum probleminha e ao falar com eles, me respondem. É uma palavra para lá e um miado para cá, coisa mais linda! Amor puro!

Por essas e outras, não entendo como as pessoas não conseguem dialogar e se perdem. E ainda que falem a mesma língua, não chegam a consenso e têm dificuldade de restabelecer a paz. Não é a linguagem, é o amor pequeno ou inexistente. Que pena. Deveriam aprender a se comunicar e, sobretudo, a ouvir uns aos outros.
170820091333 - 170820091333 190920091754 - 190920091754 Altos papos com Happy e Shiny

Adicionar comentário às 08:26 Vera Pinheiro

Em um mês, o Natal

Vera Pinheiro
Daqui a um mês será Natal. Já! Minha decoração natalina está pronta… ou quase! O mais importante da festa não são os enfeites, mas as pessoas… e o tal espírito natalino, claro, que não devia baixar somente nesta época, mas perdurar ao longo do ano. De todo modo, a época toca os corações e sugere rever as nossas relações, o próprio comportamento humano e como temos sido uns com os outros.

Junto com minha filha Camila montei o pinheirinho que tenho há muitos e muitos anos. O nosso pinheiro é pequeno, mas está de bom tamanho, e ainda falta decorar a árvore em frente a casa – esta é mais trabalhosa, pela altura. Quando meu filho Guilherme chegar junto com a minha nora Renata tudo estará enfeitadinho! Pendurei mil coisinhas por todos os lugares e percebi que mudei tudo. Não consegui colocar os enfeites onde eles estavam no ano passado, mas isso tem razão de ser. De um ano para outro mudanças ocorrem em nós. Porém, devo admitir que gosto disso, representa aprendizado, crescimento, evolução, e eu não gostaria que tudo estivesse absolutamente igual ao que era antes, pois seria indicativo de estagnação, e a vida é dinâmica.

Semana que vem vou às compras! Essa parte é rude. Não gosto de me enfiar em lojas lotadas, mas acabo me rendendo à vontade de presentear as pessoas do meu convívio mais íntimo com alguma coisinha. “É só uma lembrancinha, não vai reparar”. Faz parte do show. E gosto do pinheirinho rodeado de presentes na noite de Natal e da carinha de surpresa dos meus amados. “Não precisava!”. Gosto da alegria da data, dos abraços, dos bons votos, da família reunida, esquecendo as chatices e desencontros… e gosto de panetone. Nem vi os preços ainda! Nisso todos os Natais parecem iguais, embora não sejam. Alguns momentos se repetem, outros são parecidos. O importante é estar junto, confraternizar, coisa de que a gente esquece nos outros dias do ano, e não devia ser assim. Devíamos festejar as pessoas todos os dias e agradecer por elas estarem em nossas vidas.
IMG 3121 - IMG 3121

Adicionar comentário Quarta, 25 de Novembro de 2009 às 08:13 Vera Pinheiro

O tamanho

Vera Pinheiro
Grande ou pequeno? Não importa. A importância, a qualidade, a funcionalidade, a competência dizem muito mais do que medidas avantajadas ou tímidas. Pode ser uma coisinha bem pequenininha, mas pode tanto incomodar, e muito, como dar prazer.

Uma uva, por exemplo, é deliciosa e talvez não o fosse se tivesse o tamanho de uma jaca, que, aliás, nunca comi. Um cacetinho mini, que há instantes saiu do forno, é mais saboroso do que um pão francês de tamanho normal e duro, de uma semana atrás (ah, lá nos pampas chamam pão francês de cacetinho, só para clarear… e para não darem outra conotação). Um pedaço de torta de chocolate é delicioso, mas ninguém aguenta enfiar goela abaixo um bolo enorme, de uma só vez. Dá fastio, não dá? Uma gotinha de perfume faz mais charme do que virar um vidro inteiro de loção sobre o corpo. Um decote, uma brecha no vestido, arrasa mais do que tudo de fora, em exposição exagerada. Um drinque é mais divertido do que um porre. Um sorriso diz mais que mil palavras. Um pontinho que fica cutucando depois da cirurgia dói muito mais do que o corte, que teve anestesia.

E por aí vai, tudo é muito relativo. Não é questão de tamanho. “Pequetito pero cumplidor!”, isso é que é! Não são as dimensões, as réguas, as balanças que medem o sentir. E tudo o que é bom para nós tem o nosso número, não sobra nem falta. É na medida! Ou não é. Tipo sapato, que encaixa ou não, e não adianta forçar só porque é bonito e a gente gosta.

Adicionar comentário Terça, 24 de Novembro de 2009 às 07:48 Vera Pinheiro

Alerta

Vera Pinheiro
Cartaz - Cartaz
Talvez eu devesse me apresentar embalada com uma tarja: “Cuidado, frágil - Mas nem tanto!”, com uma fita vermelha onde estaria inscrito: “O Ministério da Saúde adverte: É perigosa!”, contendo uma bula que recomendasse “cuidado com as reações intempestivas, exageradas”, orientando qual é o lado que deve ser usado para cima e como descobrir isso antes que aconteça uma explosão.

Talvez devesse ter anexado um manual de instrução que tentasse explicar como funciono, alertando que opero em cinco voltagens, não tenho peças de reposição, sou de difícil manuseio, dou choque ao menor contato, não existe similar no mercado, não posso ser devolvida, não há onde fazer reclamações nem pessoal especializado que me entenda.

Posso ser adquirida, conquistada, mas o risco é por conta do consumidor do meu afeto. Quando ingerida em doses excessivas, causo dependência. Recomendo cautela no trato, porque posso ter efeitos secundários indesejados. Nas primeiras doses geralmente apaixono, mas com o tempo de convívio essa reação é superada. Persistindo os sintomas, prepare-se para me amar por toda a vida.

Alerto para a necessidade de certificar-se se deseja viver uma eternidade em segundos e inverter isso logo depois, se tem fôlego para correr, ânimo para viver e alma de tobogã. Tenho unhas de águia, olhos de lince, fúria de leoa, dengo de gata, fidelidade canina, delicadeza de pássaro, patas de cavalo, corpo de deusa, ar de princesa, inteligência de sábia, pureza de menina e solto fogo pelas ventas, resquício da minha porção dragão. Acrescente-se a isso que tenho uma faca na bota e uma rosa no coração, um insuportável bom-humor, persistência de água mole em pedra dura e uma modéstia comovente.

Quem aguentar, que fique comigo para sempre. Estarei junto de quem puder enfrentar todos os riscos e todos os risos.

2 comentários Domingo, 22 de Novembro de 2009 às 08:13 Vera Pinheiro

Crônica da semana - A busca da perfeição

Vera Pinheiro
A perfeição não é deste mundo, disseram-nos desde o princípio. No entanto, corremos atrás dela o tempo todo e nos esmeramos em fazer tudo da forma mais perfeita possível. Não nos interessa o que seja apenas razoável, desejamos o melhor. Não aceitamos o que não representa exatamente o que sonhamos, queremos realizações conforme o planejado. Não toleramos o que não se enquadra no modelo prévio, grandioso, que traçamos para a nossa vida. Não acolhemos pessoas que não se harmonizam com nossa expectativa geralmente exagerada sobre os outros. Por querermos o máximo, desconhecemos o valor que existe no mínimo. Ansiando pelo maior, descartamos o menor. Na busca pelo que é grande, desconsideramos o que é pequeno. Na angústia de uma procura sem fim pela magnitude, ignoramos a singeleza e abominamos a simplicidade.

As atitudes se orientam pela cobiça, as escolhas se movimentam na direção do que é superior e incomum, o gosto se concentra no que está no topo dos preços e da qualidade. O mais caro é cobiçado, o mais bonito é desejado, o mais disputado desperta o interesse, o mais difícil estimula a competição. Não levamos em conta o que nos é dado com generosidade, o que espontaneamente nos ofertam é desvalorizado, o que não é cercado de contendas é menosprezado, afastamos o que não simboliza prêmio à vitória árdua e rejeitamos o que não está no campo das ambições extremadas. Quanto mais, melhor, pensamos, e não percebemos que, muitas vezes, menos é mais.

Daí a colecionarmos frustrações é um passo rápido. Afinal, não nos contentamos com o que não atinge o alto grau almejado. O dinheiro nunca é suficiente, os bens acumulados não bastam, o sucesso não chegou ao ideal, os resultados não agradam, a felicidade não se completa, mesmo que tenhamos vencido. Continuamos a querer mais ainda, na incessante meta de atingir um patamar que está acima de nossas possibilidades. Tudo parece pouco para as nossas aspirações. Até quando?

Enquanto isso, a realidade tem outra aparência e é diametralmente oposta ao intencionado: a família não é unida, o trabalho não contenta, os parentes não são notadamente exemplares, os amigos não parecem modelos de virtude, o corpo não é escultural, a inteligência é mediana, a beleza não chama atenção, a pessoa não é rica, tampouco famosa, os defeitos saltam aos olhos, a alma precisa ser lapidada, o coração está em desassossego, as emoções andam em reviravolta, os sentimentos são atordoados, não assina obra que a humanidade exalte, mas é o que alguém tem. O que fazer com isso: achar que nada tem valia ou procurar algum aspecto bom no que faz parte de sua vida? Vai reclamar do que não tem ou valorizar o que está em suas mãos? Vai ter-se como um desassistido da sorte ou vai apreciar as benesses que consegue identificar ao seu redor?

Buscar a perfeição pode conduzir ao vazio material e espiritual se o querer se modifica e continuamente cresce, apesar do que já temos. A caminhada sobre o plano terreno é feita de passos miúdos. A cada instante, uma lição; a todo momento, um aprendizado. Contabilizar cada item do crescimento pessoal e alegrar-se é gratidão pelo que alcançamos nas diferentes etapas do viver. Não ser tão exigente conosco e absolver os outros de nossas inquietudes em relação ao que esperamos deles é ser condescendente com a vida e agradecido pelo que ela nos oferece, mesmo que não seja a expressão fiel de nossas aspirações.

Talvez não alcancemos todos os nossos sonhos, é possível que não tenhamos tudo o que cobiçamos, é provável que não realizemos todos os desejos. Então, precisamos desenvolver a compreensão e a aceitação dos limites para podermos contemplar os triunfos diminutos como conquistas plenas. Se jamais nos satisfazemos com o que somos, com o que temos, com o que nos cerca e com as pessoas que estão conosco, andaremos eternamente em busca do inatingível, não encontraremos prazer e o que conseguirmos não será o bastante, porque tudo estará fora do nosso alcance, na próxima vontade.

A alegria de ter e de ser está no que valorizamos, por menor que seja, não na utopia, como a perfeição, e, aliás, ninguém sabe defini-la. Daí a importância de olhar o que já se adquiriu antes de tentar obter novos ganhos. A idéia não é se contentar com pouco, mas não viver a procura do que não se sabe o que é nem onde está. Não significa obrigatoriedade de se restringir ao que se tem, mas sentir-se tão satisfeito que isso impulsione a ir além.
(*) Crônica publicada na edição de 21 e 22 novembro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

2 comentários Sábado, 21 de Novembro de 2009 às 07:18 Vera Pinheiro

Contando os trocados

Vera Pinheiro
Entrei rapidamente no supermercado para comprar itens de lanche para casa. Por não ter almoço pronto e devido ao adiantado da hora, pensei em levar um franguinho assado. Aguardava atendimento no balcão, enquanto um homem, aparentando uns 30 anos, negro, alto e de uniforme não sei de que empresa, pedia uma “quentinha” para levar.

Do lado de dentro do balcão, o atendente colocou uma porção de arroz, farofa, uma coxa de frango e, do lado de fora, o cliente pediu para colocar mais duas porções e um pedaço de linguiça. “Pese para ver quanto isso custa”. O atendente pesou e disse que custava 5 reais. “Não posso pagar. Deixe só a coxinha, tira o restante de frango”. O outro deixou a coxinha e a linguiça. “Pesa de novo, pois só tenho R$ 3,55”, disse o freguês. Nova pesagem e foi preciso tirar a única fatia de lingüiça.

Fiquei com tanta dó do homem que não pedi nada. Tive sincera vontade de pagar o almoço do rapaz, mas não sabia como ele receberia uma oferta dessas, se não se sentiria humilhado por ver que alguém observava a sua penúria.

Pensei nos desperdícios e exageros que se cometem à mesa. Fiquei com muita vontade de comer um pedaço de frango e uma linguicinha, mas logo perdi o apetite. Não sei se fiz certo ou errado. Sei apenas que fiquei com dó do rapaz, mas isso, reconheço, não ajuda coisa alguma.

Ainda não almocei. Vou fazer uma comida simples, pouco mais que um lanche. Eu tenho tanto! Graças dou. Graças dou. Graças dou!

Adicionar comentário Sexta, 20 de Novembro de 2009 às 13:23 Vera Pinheiro

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