Vou armar a barraca!
Vera Pinheiro
Estou quase pronta para ir para o mato! Finalmente comprei uma barraca e um colchão de ar! De solteiro, porque, em breve, vou dormir sozinha no meio da floresta. Quando saio da urbanidade para meus retiros espirituais, tenho duas alternativas: ou ando um bom trecho com a mala na garupa para dormir dentro de casa ou durmo encolhida dentro do carro. Pois esse tempo já passou! Agora vou armar a barraca e dormir espichada junto da natureza e não vou passar trabalho, carregando as minhas coisas para cima do morro na ida e de morro abaixo na volta.
Na hora da compra fiquei indecisa. Não queria uma barraquinha muito pequenina, porque sou espaçosa. Fiquei encantada por uma barraca enorme, parecendo um castelo, de tão grande! Tinha dois compartimentos isolados para duas pessoas em cada um, mais um espaço livre. Maravilhosa! Logo pensei na possibilidade de acampar com minha filha, meu filho e minha nora.
Olhei outra, bem menor, onde mal cabia um colchonete. Não gostei, me senti espremida como uma sardinha em lata!
Acabei me decidindo por uma destinada a quatro pessoas num único compartimento, que vou ocupar sozinha. Não me imagino amontoada com outras três pessoas. Isso é bem difícil para quem está acostumada a dormir sozinha e se espalha pela cama, como faço. E quem acostumou a dormir sozinha geralmente não é uma boa companhia.
Na hora de escolher o colchão fiquei em dúvida de novo. O de casal é o que eu gostaria, na verdade, mas optei por um de solteiro mais alto, que pode ser útil em caso de chuva. Penso que, se molhar o chão, a água demora mais para bater na bunda. Fiquei com esse.
Vi, então, como é difícil fazer uma escolha pensando exclusivamente em mim. Cacoete de mãe, sem dúvida. Ao comprar qualquer coisa logo penso em compartilhar com a família. Diante das barracas, fiquei sonhando em ter meus filhos e a nora do meu lado, e a minha imagem solitária dentro de uma mata se distanciou. Pensei no quanto seria divertido tê-los comigo, fazendo trilhas, caminhando a céu aberto, dormindo sob a luz do luar, acordando com o sol, nadando em cachoeiras…
Só que a realidade não é bem assim como se sonha. Os filhos crescem e tem seus próprios programas, e não posso incluí-los nos meus sem consultá-los. Se estruturar o futuro - numa barraca, que seja -, sonhando que eles estejam comigo nas minhas aventuras, e eles disserem “não, mãe, temos outros planos”, corro o risco de me frustrar, o que não quero para mim. Isso é o alerta da necessária independência que devo construir para mim nessa fase de minha vida. Não é um aprendizado fácil para quem passou a vida se dividindo com os filhos, mas a hora chegou. É a hora da solitude. É hora de pensar nos meus interesses, no que preciso, no que gosto, no que quero. Não posso querer meus filhos colados à minha saia nem debaixo da minha barraca. Eles têm suas próprias vidas e seus quereres. Preciso reencontrar a minha vida e os meus quereres.
Adicionar comentário Quarta, 4 de Novembro de 2009 às 20:29 Vera Pinheiro