Crônica da semana - Novo corte umbilical (*)
Vera Pinheiro
Há momentos na vida que poderiam ser considerados um segundo parto, aquele em que se dá o necessário corte do cordão umbilical – de novo! Um deles, quando a pessoa cresce, toma a própria vida nas mãos e decide, dali em diante, definir sozinha qual rumo tomar, o que fazer, como se manter e a forma como haverá de suprir suas necessidades sem correr para o colo da mãe a cada dificuldade. É a porta de entrada da maturidade, o aceno para a independência.
Assume corajosamente suas próprias razões e não presta satisfação de seus atos, projetos, sonhos, vontades, erros e acertos. Tudo por sua conta e risco, colocando a autoconfiança em cheque e medindo o seu preparo para as alegrias e vicissitudes que a esperam.
Pode morar longe da família, mas a questão não é geográfica, e sim, íntima. Observa a capacidade de sustentar-se materialmente e de conseguir consolar-se sem ajuda nas horas de profunda solidão, não tendo a quem pedir opinião e ninguém a lhe entregar receitas de bem viver nem conselhos para qualquer circunstância.
No princípio, novidades e encantos, mas, também, desafios e aprendizados que, em caso de êxito, afagarão o ego. No lado oposto, o reforço da obrigação de se haver consigo sem auxílio dos familiares. Algumas coisas darão erradas – pratos queimados, roupas manchadas, administração equivocada de seu caminho, mas sobreviverá, especialmente pela motivação de provar que é capaz.
A tão almejada independência tem seus custos, mas a pessoa está disposta a pagar o preço para ver que tinha razão ao decretar sua carta de alforria, e sempre achou que mãe – pródiga em paparicos e cuidados – estava, na realidade, alimentando suas fraquezas, embora, no fundo, fosse somente zelo em doses incompreendidas, o que rechaça para não fortalecer aquela que, imagina, não está ao seu lado.
Situação desafiadora é resolver constituir nova família, quando se centra em quem é sinônimo de amor, prazer e partilha. O convívio faz descobrir que o par é apenas um ser humano em construção, e igualmente cheio de angústias. Apesar disso, aposta no sucesso da relação, segue em frente a despeito de qualquer advertência, e só se arrepende se constata que deveria ter ouvido o que disseram os antigos no trilhar da existência. Sem companhia para compartir dores e preocupações, precisa arcar com as consequências de suas escolhas, principalmente as que carregam marcas de equívocos que não foram previstos, impulsos incontidos e avaliações mal elaboradas.
Busca realização na vida pessoal, com a pessoa amada, na profissão e em todas as suas relações. O passado é guardado como uma referência, não mais que isso, e se entrega inteiramente aos seus desejos, sejam do corpo ou das expectativas. Muitos planos, o ideal de ser feliz, a vontade de conquistar o mundo para além das paredes da repressão de que julga ter sido vítima, embora nada a comprove. Anseia por desvincular-se, cortar raízes, renovar contatos, sair dos limites, desafiar as demarcações que, supostamente, a confinaram em valores que não são seus, mas herdados sem chance de contraversão.
Terá noção clara do que era a sua realidade ao alcançar compreensão do que estava ao seu entorno, geralmente ao cruzar a linha da maturidade. Olhará para trás e verá que nem tudo o que julgava errado o era, e que suas vitórias não dispensaram o esteio que lhe foi conferido antes das rupturas.
Chega, então, a hora de novo renascer, a ocasião de abandonar as utopias. Reflete sobre o que construiu e avalia se os triunfos compensaram as perdas que sofreu. É uma pessoa dona de seu nariz, de sua vida, de sua história, mas, se não alimentou vínculos importantes, um imenso vazio toma conta de seu ser. Encara-se no espelho e pergunta: “Quem sou eu?”. Gostaria de ter de volta o colo que já não está disponível, as pessoas que partiram e uma chance de retomar o curso de certos acontecimentos. Uma indagação surge: “Valeu?”. Nem sempre. Assim, há que ter o cuidado de não perder a si nem derrocar a identidade original e sua essência ao se lançar a procura do que é, percebendo que os atos de desvincular-se para chegar ao crescimento passam pelo corte umbilical para a pessoa respirar a sua vida. Não é fácil, mas é indispensável.
(*) Crônica publicada na edição de 7 e 8 novembro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.
Adicionar comentário Sábado, 7 de Novembro de 2009 às 06:53 Vera Pinheiro