Crônica da semana - Papo de ex na terceira idade
Vera Pinheiro
Coisa deprimente encontrar um ex que está na terceira idade – ou a caminho dela, como estou. Primeiro, a alegre surpresa do encontro – alegre, sim, porque, se o cara não for uma boa lembrança, a gente atravessa a rua ou desliga o computador. Depois, invariavelmente, e para nossa decepção, o papo desanda por falta de assunto. Ou, pior, o assunto não varia.
Em seguida ao “Oi, tudo bem?”, ele engata a pergunta: “E aí, já se aposentou?”. Não pergunta o que a gente tem feito, com quem tem saído, se viajou, onde vai passar as férias, se tem dançado, beijado na boca ou se a vida continua como dantes era. Sexo selvagem, então, nem pensar! Isso faz parte do passado, na cabeça dele, claro. Até o seu olhar está diferente, e nos entrega uma olhadela de piedade, insuportável, ou, no máximo, olhos de quase irmão, batendo nos nossos. Nenhuma paquerada vinda do ex, e aquela espiada de alto a baixo, que antes arrepiava, simplesmente desapareceu! Um aperto de mão, um beijo murcho em cada bochecha, um abraço sem encostar corpos. Ainda que rapidamente, é inevitável recordar os encontros de outrora, que ele pode ter esquecido, mas a gente, não. E dizer que se arrastava um bonde por quem, hoje, não causa o menor “choquinho” nas emoções! Quando foi mesmo que mudou?!
Na sequência, uma longa e fatigante conversa sobre filas e estacionamentos preferenciais, descontos para idosos, achatamento da aposentadoria, farmácias que vendem produtos mais baratos, além de um relato circunstanciado dos exames que ele fez nos últimos 12 meses, sem esquecer da agenda médica com todas as especialidades, que coloca à disposição. Chamar para um chopinho? Capaz! Logo ali tem um café onde servem chá, sorvido com um comprimidinho que está no bolso da calça, de estilo conhecido desde “aqueles tempos”. Um susto de loja não lhe faria mal, a gente pensa, mas não diz. Um sopro de vida é o que lhe falta, e isso não dá para confessar, senão acaba com o que resta de autoestima nele, e, não faz muito, ele nos botava em tremores, e era inacessível e inconquistável.
Se continua casado com a mesma mulher, desaba num falatório que não temos paciência de ouvir, e a ansiedade começa a tomar conta, junto com a vontade de que ele suma de vez e nunca volte! Se está viúvo, faz um ar condoído de cortar a alma! Estando separado, dá a impressão de estar louco para que outra substitua a antiga titular na trinca cama, mesa e banho. Cama para arrumar, que mais não tem; mesa para servir, e banho para dar num aperto futuro, se houver.
O clima! Não há outra conotação para clima, nesse encontro. Choveu demais, de menos, gripes, resfriados, vacinas e soluções medicamentosas para todos os males, o que faz supor que aquele moço de antigamente engole uma bula por dia, apesar da aparência saudável. Tentativa inútil a de levar a prosa para o filme que acaba de ser lançado, um best-seller, a academia, a última novidade em equipamentos eletrônicos ou o endereço do boteco da moda, onde uma galera gente boa se encontra para o happy hour. Não surte efeito, ele parece desconectado do universo, e mesmo que tenha a nossa idade, envelheceu demais por não se ter antenado à vida.
A essa altura, nossa mão está estendida, dizendo adeus sem nenhuma saudade, e dando graças porque aquele homem saiu do convívio. E quantas lágrimas deitamos no travesseiro, pensando nele, querendo que retornasse aos nossos braços. Ainda bem que não, reconhecemos agora, mas o reencontro tem uma última pergunta, que jamais falha: “Quantos netos tem?”. Um ex antigo não resiste saber disso, impressionante! E o discurso cai num tema que não depende de nosso querer, afinal, é da conta de nossos filhos nos tornarem avós quando e se bem entenderem. Não aguento nem entendo a cara penalizada, quando ele me diz: “Ainda não?!”. Dou tiauzinho e saio a passos largos! Sem deixar celular, e-mail, facebook, orkut, twitter, skype, icq, msn, site, blog, que ele nem sabe o que são…
Homens, vocês não precisam envelhecer como se a terceira idade fosse um fardo! Mudem de assunto, atualizem as conversas, dinamizem os temas, olhem-nos como mulheres que ainda vivem, pensam, amam, gostam de sexo e que, nesta fase, tem mais dinheiro e tempo do que antes. E não reparem se a gente passar agarradinha num gatão 20 anos mais novo. A culpa é de vocês!
(*) Crônica publicada na edição de 14 e 15 novembro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.
2 comentários Sábado, 14 de Novembro de 2009 às 07:12 Vera Pinheiro