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Crônica da semana - A busca da perfeição

Sábado, 21 de Novembro de 2009 às 07:18 Vera Pinheiro  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 197

Vera Pinheiro
A perfeição não é deste mundo, disseram-nos desde o princípio. No entanto, corremos atrás dela o tempo todo e nos esmeramos em fazer tudo da forma mais perfeita possível. Não nos interessa o que seja apenas razoável, desejamos o melhor. Não aceitamos o que não representa exatamente o que sonhamos, queremos realizações conforme o planejado. Não toleramos o que não se enquadra no modelo prévio, grandioso, que traçamos para a nossa vida. Não acolhemos pessoas que não se harmonizam com nossa expectativa geralmente exagerada sobre os outros. Por querermos o máximo, desconhecemos o valor que existe no mínimo. Ansiando pelo maior, descartamos o menor. Na busca pelo que é grande, desconsideramos o que é pequeno. Na angústia de uma procura sem fim pela magnitude, ignoramos a singeleza e abominamos a simplicidade.

As atitudes se orientam pela cobiça, as escolhas se movimentam na direção do que é superior e incomum, o gosto se concentra no que está no topo dos preços e da qualidade. O mais caro é cobiçado, o mais bonito é desejado, o mais disputado desperta o interesse, o mais difícil estimula a competição. Não levamos em conta o que nos é dado com generosidade, o que espontaneamente nos ofertam é desvalorizado, o que não é cercado de contendas é menosprezado, afastamos o que não simboliza prêmio à vitória árdua e rejeitamos o que não está no campo das ambições extremadas. Quanto mais, melhor, pensamos, e não percebemos que, muitas vezes, menos é mais.

Daí a colecionarmos frustrações é um passo rápido. Afinal, não nos contentamos com o que não atinge o alto grau almejado. O dinheiro nunca é suficiente, os bens acumulados não bastam, o sucesso não chegou ao ideal, os resultados não agradam, a felicidade não se completa, mesmo que tenhamos vencido. Continuamos a querer mais ainda, na incessante meta de atingir um patamar que está acima de nossas possibilidades. Tudo parece pouco para as nossas aspirações. Até quando?

Enquanto isso, a realidade tem outra aparência e é diametralmente oposta ao intencionado: a família não é unida, o trabalho não contenta, os parentes não são notadamente exemplares, os amigos não parecem modelos de virtude, o corpo não é escultural, a inteligência é mediana, a beleza não chama atenção, a pessoa não é rica, tampouco famosa, os defeitos saltam aos olhos, a alma precisa ser lapidada, o coração está em desassossego, as emoções andam em reviravolta, os sentimentos são atordoados, não assina obra que a humanidade exalte, mas é o que alguém tem. O que fazer com isso: achar que nada tem valia ou procurar algum aspecto bom no que faz parte de sua vida? Vai reclamar do que não tem ou valorizar o que está em suas mãos? Vai ter-se como um desassistido da sorte ou vai apreciar as benesses que consegue identificar ao seu redor?

Buscar a perfeição pode conduzir ao vazio material e espiritual se o querer se modifica e continuamente cresce, apesar do que já temos. A caminhada sobre o plano terreno é feita de passos miúdos. A cada instante, uma lição; a todo momento, um aprendizado. Contabilizar cada item do crescimento pessoal e alegrar-se é gratidão pelo que alcançamos nas diferentes etapas do viver. Não ser tão exigente conosco e absolver os outros de nossas inquietudes em relação ao que esperamos deles é ser condescendente com a vida e agradecido pelo que ela nos oferece, mesmo que não seja a expressão fiel de nossas aspirações.

Talvez não alcancemos todos os nossos sonhos, é possível que não tenhamos tudo o que cobiçamos, é provável que não realizemos todos os desejos. Então, precisamos desenvolver a compreensão e a aceitação dos limites para podermos contemplar os triunfos diminutos como conquistas plenas. Se jamais nos satisfazemos com o que somos, com o que temos, com o que nos cerca e com as pessoas que estão conosco, andaremos eternamente em busca do inatingível, não encontraremos prazer e o que conseguirmos não será o bastante, porque tudo estará fora do nosso alcance, na próxima vontade.

A alegria de ter e de ser está no que valorizamos, por menor que seja, não na utopia, como a perfeição, e, aliás, ninguém sabe defini-la. Daí a importância de olhar o que já se adquiriu antes de tentar obter novos ganhos. A idéia não é se contentar com pouco, mas não viver a procura do que não se sabe o que é nem onde está. Não significa obrigatoriedade de se restringir ao que se tem, mas sentir-se tão satisfeito que isso impulsione a ir além.
(*) Crônica publicada na edição de 21 e 22 novembro de 2009 no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

Publicação arquivada em: Coisas da vida

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2 Comentários Faça seu próprio

  • 1. Ursula  |  21 de Novembro de 2009 às 17:00

    Ola,
    Primeiro de tudo, um bom dia. A senhora não me conhece, eu me chamo Ursula. Eu te encontrei de uma forma muito diferente. Eu estava procurando minha madrinha na internet porque nós perdemos contato! Seu nome é Ursula Schellenberger, o google me redirecionou para sua pagina no dia 6 de Junho de 2008. E qual foi a minha surpresa quando eu vi uma foto da minha madrinha na sua página! Eu gostaria de saber se a senhora poderia me passar o e-mail dela. Eu moro nos Estados Unidos e há anos já não nos falamos!
    Muito Obrigada!!!
    Tenha um bom dia!

  • 2. Vera Pinheiro  |  22 de Novembro de 2009 às 07:50

    Querida Ursula,
    Como medida de segurança e em respeito aos amigos deste blog não forneço e-mail de ninguém, mas faço o contato se me pedem. Encaminhei a tua mensagem para Ursula Schellenberger e ela poderá contatar contigo. Que seja um feliz reencontro.
    Beijos e obrigada pela visita. Volta sempre!
    Vera Pinheiro

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