Alerta
Vera Pinheiro

Talvez eu devesse me apresentar embalada com uma tarja: “Cuidado, frágil - Mas nem tanto!”, com uma fita vermelha onde estaria inscrito: “O Ministério da Saúde adverte: É perigosa!”, contendo uma bula que recomendasse “cuidado com as reações intempestivas, exageradas”, orientando qual é o lado que deve ser usado para cima e como descobrir isso antes que aconteça uma explosão.
Talvez devesse ter anexado um manual de instrução que tentasse explicar como funciono, alertando que opero em cinco voltagens, não tenho peças de reposição, sou de difícil manuseio, dou choque ao menor contato, não existe similar no mercado, não posso ser devolvida, não há onde fazer reclamações nem pessoal especializado que me entenda.
Posso ser adquirida, conquistada, mas o risco é por conta do consumidor do meu afeto. Quando ingerida em doses excessivas, causo dependência. Recomendo cautela no trato, porque posso ter efeitos secundários indesejados. Nas primeiras doses geralmente apaixono, mas com o tempo de convívio essa reação é superada. Persistindo os sintomas, prepare-se para me amar por toda a vida.
Alerto para a necessidade de certificar-se se deseja viver uma eternidade em segundos e inverter isso logo depois, se tem fôlego para correr, ânimo para viver e alma de tobogã. Tenho unhas de águia, olhos de lince, fúria de leoa, dengo de gata, fidelidade canina, delicadeza de pássaro, patas de cavalo, corpo de deusa, ar de princesa, inteligência de sábia, pureza de menina e solto fogo pelas ventas, resquício da minha porção dragão. Acrescente-se a isso que tenho uma faca na bota e uma rosa no coração, um insuportável bom-humor, persistência de água mole em pedra dura e uma modéstia comovente.
Quem aguentar, que fique comigo para sempre. Estarei junto de quem puder enfrentar todos os riscos e todos os risos.
2 comentários Domingo, 22 de Novembro de 2009 às 08:13 Vera Pinheiro