Crônica da semana - Deixa ir
Sexta, 29 de Janeiro de 2010 às 14:57 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 107
Vera Pinheiro
Eu adorava um creme hidratante que deixava a minha pele tão sedosa e refrescada que a ultrapassagem de meio século não fazia estragos na face, enquanto as vivências aprimoravam o espírito, elevavam a sabedoria e ampliavam o conhecimento. Pois, lamento, aquele maravilhoso hidratante acabou. Por meu querer, torceria o tubo até jorrar a última gotícula, mas, sendo a embalagem de vidro, lhe faltava maleabilidade para torções e, uma vez apertada demais, se romperia em cacos.
Assim também as relações amorosas, familiares e de amizade. Algumas são frágeis e ao terminarem, nada resta senão lembranças. Outras podem ser renovadas e há as que são substituídas. Distanciando-nos, tomamos contato com a verdadeira estrutura do vínculo, se realmente importava ou se era apenas ilusão dos sentidos. Aliás, a distância se encarrega de conferir atributos que não são percebidos quando a proximidade é acompanhada de distração e embaraçada por excessos sentimentais de toda ordem.
Esvaziado o tubo, digo, o relacionamento, é preciso deixá-lo ir. Porém, é difícil não se agarrar ao vidro vazio e a uma história que não tem mais nada para viver, mas que nos é cara. Temos apego a lembranças boas e elas nos aprisionam e escravizam nas rupturas. Não é simples nem fácil desfazer-se de ligações com pessoas, porque, de alguma forma, elas ficam em nós quando instalam a ausência, mesmo quando consentida e compartilhada de comum acordo. É forçoso abrir a porta e esvaziar o espaço do coração, ainda que ele se lote de saudade. Se não curar, o tempo se encarrega de amortecer a dor que resultou da despedida, das perdas e de eventuais mágoas que sobraram da experiência.
Deixar ir liberta o outro e a si, permitindo que ambos se refaçam individualmente e que se conduzam, sozinhos ou acompanhados, rumo à felicidade que desejam e merecem. É inútil e desgastante a tentativa de manter perto quem já acenou o adeus e é em vão sofrer por quem não quer ficar junto. Em vez disso, existe a possibilidade de voltar a atenção para a própria vida e repensar o futuro, então sem a companhia de quem partiu por livre e espontânea vontade, por suas questões pessoais, intrínsecas, que independem das atitudes de quem fazia parte da convivência. Assim, convém eximir-se de culpa pelas vontades alheias e retomar a caminhada.
Haverá ocasiões em que os questionamentos não darão sossego à mente, levando repetidamente ao mesmo ponto: “O que há de errado comigo?!”. Não busques explicações para o que não está em ti, mas no outro, no que ele pensa e quer, e o querer dele pode não te incluir, apenas isso, o que não implica defeitos insuportáveis teus ou que não sejas digna daquela presença ao teu lado.
Quando alguém toma a decisão de se apartar de nós, é necessário compreender as suas razões e, para isso, colocar-se no lugar dele permite que vejamos os acontecimentos do seu ponto de vista. Ao nos deslocarmos de nossas posições, ideias e convicções para observamos o mundo que a outra pessoa enxerga, conseguimos entendê-la, pois não nos fixamos nas opiniões que temos. Isso não nos impõe abdicar do que pensamos nem nos obriga a mudar o modo de agir, mas nos dá uma perspectiva do olhar do outro, e ainda que não concordemos, alcançamos as suas percepções.
Os primeiros momentos de tudo o que nós vivemos são, sempre, árduos por não termos habilidade para lidar com situações novas, que nos assustam. No afastamento de quem amamos, a solidão ocupa o lugar que era de alguém muito querido e nos desmanchamos em lágrimas e angústias, mantendo-nos atrelados à energia daquela convivência. Entramos em um luto emocional, fechando-nos na toca como um bicho ferido. O amor perdura até que se esgota, um dia. O conteúdo do tubinho acaba; a gente, não.
A vida, que é paciente e amorosa, continua batendo à porta e nos convida a sair da prisão interior em que nos enclausuramos. Assim, a chama se acende de novo! Renascemos das cinzas de um amor perdido, das partidas que gostaríamos de ter evitado, do padecimento que nos abateu, mas não nos liquidou. Então, com força e coragem, vamos ao espelho e nele uma imagem mais amadurecida, mas não menos bela, se apresenta. Um creme facial acaba e a gente põe o vidro fora. Das vivências se tiram lições que nos revigoram!
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