Arquivo de Fevereiro de 2010

O jardineiro e a doméstica

Vera Pinheiro
Ao abrir a janela me demorei a contemplar o quintal limpo, ainda com o cheiro fresco da grama cortada. Meu quintal estava um mato até ontem, não por relaxamento, mas porque a minha agenda não combinava com a do jardineiro, um profissional muito requisitado na vizinhança. Ele chega pontualmente às 8h carregando duas máquinas de cortar grama e uma garrafa térmica enorme, com água gelada, embaixo do braço. Fala pouco e tem o olhar desconfiado. Sirvo-lhe um café bem farto antes que comece o serviço e ele só interrompe a lida quando o chamo para o almoço, que ele come de cabeça baixa e logo retoma o que estava fazendo. A faxineira me deu uma dica preciosa: o jardineiro não gosta de companhia na hora da refeição, fica encabulado. E gosta de comer “quentinhas”, que já têm a medida do que cabe no estômago dele. Quando ele vem, compro uma “quentinha”, deixo-o sozinho e depois sirvo o almoço que fiz para nós.

Acho que ele não gosta muito de que eu fique por perto, cuidando das plantas, enquanto ele faz a limpeza do quintal, mas faço a minha parte porque reparei que ele gosta de cortar a grama e podar as árvores, mas não tem paciência para tratar das flores e folhagens, então assumo o serviço mais delicado e também cuido da horta, a minha nova diversão… ou seria terapia?

Não preciso olhar as horas para saber quando são 16h. Ele começa a juntar o lixo e em menos de meia hora já está arrumado para sair. Não fica nem um minuto a mais, e se lhe peço para fazer algum arremate que julgo necessário, ele vai direto ao ponto sem titubear: “Só na próxima, agora não dá tempo”. Nem se implorar! Pega o pagamento e tiau!

A doméstica faz a mesma coisa. Ontem ela estava acelerada. Eu quase podia ouvir seus batimentos cardíacos apressados durante todo o dia. “Posso saber o que há?”, perguntei, curiosa. Estava de hora marcada para ir às compras com uma prima e pegaria o ônibus das 16h30. Tudo previamente combinado, às 16h ela já estava de bolsa na mão a espera do pagamento e logo sumiu na esquina da rua, antes que eu dissesse um “mas”. Qualquer coisa que eu quisesse pedir teria de ficar para a próxima.

Preciso me lembrar do jardineiro e da doméstica quando me sentir tentada a dobrar turno, aumentar a carga horária e trazer serviço para casa. Eles realmente trabalham pesado e bem, mas não abrem mão de si mesmos, de seus horários, de suas vidas.

Adicionar comentário Domingo, 28 de Fevereiro de 2010 às 09:47 Vera Pinheiro

Crônica da semana - Insatisfação (*)

Vera Pinheiro
Insatisfação não acontece da noite para o dia, ela mina a vida aos poucos, por isso quase não percebemos os danos que ela produz. Muitas vezes é confundida com um desagrado passageiro por real motivação, e pensamos que é possível superá-la. Insistimos em dar-lhe uma justificativa plausível e atribuímos sua causa a um desconforto vinculado a fato diverso ou a situações que não resolvemos, fechando os olhos para a sua importância e negando a sua identidade intrínseca. Não damos muita atenção a aborrecimentos cotidianos repetidos, achamos que fazem parte da nossa história e contemplamos somente os aspectos felizes dos acontecimentos. Passamos por cima do desprazer e o menosprezamos, até que ele se torna insuportável e exige uma tomada de posição.

Nem sempre temos coragem de encarar a reiterada e constante falta de deleite, porque, quando constatada e assumida, ela nos impõe uma reação e, se não reagimos, enveredamos pelas sendas do conformismo, da alienação e da sucumbência moral ao que a provoca. Não solucionar as razões da insatisfação nos carimba como pessoas fracas diante de nós mesmos, e somos nossos juízes mais severos.

Mantemos relacionamentos insatisfatórios por medo da solidão ou por nos considerarmos responsáveis pela felicidade dos que estão conosco, ainda que nos amargurem. O sentimento de culpa fala mais alto do que a voz interior que manda interromper a relação no ponto em que está. Não queremos que nos acusem de sermos negligentes com os outros e nos atribuímos o encargo de zelar pelo contentamento alheio, o que se agrava se algum tipo de chantagem emocional trava soluções inadiáveis.

Temendo que a iniciativa da ruptura resulte em consequências nefastas para outra pessoa, engolimos a infelicidade que sentimos. Assusta-nos a repercussão de uma decisão que envolve alguém, além de nós, então adiamos a necessidade de providências para uma ocasião que seja propícia, mas que pode nunca chegar, esquecendo-nos do compromisso individual e intransferível de cuidar do próprio destino. Não raro, nos sentimos presos a promessas feitas no passado, quando éramos felizes, embora sem garantia de que os juramentos seriam cumpridos por toda a eternidade ou enquanto vivêssemos lado a lado, como um par. Estamos, sim, muito insatisfeitos, mas nos é custoso sentenciar o final da convivência e, no íntimo de nossas elucubrações sentimentais, nos rendemos à máxima “ruim com, pior sem”, e não arriscamos a fazer uma mudança desse status de desventura.

Acabar com uma vinculação profissional que não nos agrada é bastante difícil também, porque entram em jogo as questões de mantença e sobrevivência material, que pesam na análise, derrocando a busca de satisfação que o trabalho deve render, associado ao que remunera. Assim, apesar de insatisfeitos, nos esforçamos por conservar um emprego que não é aquilo que sonhamos para um terço das horas de cada dia. A vida se esvai em tarefas que não nos realizam, mas avaliamos demasiadamente o perigo de uma demissão e o reflexo que pode ter no padrão de vida a que nos acostumamos. Sobrevém a ilusão de que um bom salário paga a insatisfação, o que passa longe dos propósitos de compensação do espírito, que deve estar aliado ao pagamento pelo serviço que prestamos. Ocorre uma sucessão de dias em que contamos as horas para que chegue logo o fim de semana, e isso é tão avesso à satisfação quanto fazer do trabalho um meio de escapar do trato diário com quem priva de nossa intimidade.

Insatisfação é um pedido de socorro que advém das profundidades de nosso ser e não pode ser desmoralizado e ignorado. É um desgosto que precisa ser examinado em toda a sua extensão para medir o desgaste sofrido por viver em função do que não traz alegria. Ficar junto de quem não preenche a existência com bem estar é tentar, em vão, ocupar espaço vazio que devia ser recheado de plenitude. Não se desvincular de atividades que oprimem é passar recibo de incompetência para gerenciar habilidades, associada ao receio de não se achar tão apto quanto gostaria. Nós nos enfraquecemos cada vez que negamos nossos sentimentos em relação ao que vivemos e nos fortalecemos quando ousamos crer que podemos ser tão felizes quanto julgamos merecer. As insatisfações falam disso.
(*) Crônica publicada na edição de 27 e 28 de fevereiro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

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A horta

Vera Pinheiro
Caramba! Passa das duas da madrugada, mas não posso deixar de falar da minha horta! Promessa é dívida, ou, como dizia uma amiga minha, a pior coisa é dever para rico e prometer a pobre. É cobrança garantida.

Se o olho do dono engorda o boi, também faz crescer a sua horta, estou certa disso. No último sábado inaugurei – sem estardalhaços – a minha horta. O resultado, além de machucados nas mãos, é o futuro promissor do meu plantio.

Tinha um cercadinho desde que vim morar nesta casa, mas estava desativado, ou quase. O espaço estava ocupado apenas por uma plantinha, o resto era puro mato, que crescia adoidado. Na véspera de integrar o grupo “Sacerdotisas das ervas”, revirei a terra e plantei umas mudinhas. Coisa pouca, por enquanto, mas um bom começo para quem não tinha nada.

A área está a salvo das patas e bocas dos cachorrinhos, que ainda não aprenderam a pular cerca, mas quem duvida que eles façam isso?

De manhã e à noite, visito a horta para ver o estado da minha plantação. Estou tentando acertar a quantidade de água e espero não inundar a horta nem deixá-la seca demais. Tudo é um aprendizado e confesso que nada sei a respeito, mas estou me instruindo. Logo vou fazer sucesso com a minha horta, não duvido disso!

O contato com a terra tem me feito muito bem! É fantástica a energia telúrica! E se me ouvissem conversar com as plantinhas pensariam que endoideci, mas sei que elas me ouvem, entendem o meu carinho e são pacientes com a minha ignorância sobre os cuidados que elas merecem e precisam. Mal comparando – desculpem, meus amados filhos – essa lida com a horta parece com a época em que eu tinha bebês recém nascidos. Não sabia de coisa alguma, mas torcia uma barbaridade para que tudo desse certo, que eles crescessem com saúde e que eu errasse pouco.

De sábado para cá, tenho lembrado muito do Nereu, o pai dos meus filhos, falecido há mais de uma década. Era veterinário, mas tinha uma mão maravilhosa para plantar. Tudo o que ele semeava dava certo – e vejam os dois filhos dele comigo! Certa vez, tínhamos uma horta no lugar destinado ao jardim em nossa casa e ali nasciam repolhos enormes! Tenho uma foto do Gui no meio dos repolhos. Naqueles idos, as crianças nasciam de repolhos, segundo me dizia a mãe, que nunca me confidenciou o modo convencional de se plantar bebês no seio da vida. Descobri como era na prática – e que prática boa! –, depois de ter assinado a certidão de casamento, claro.

Tenho plantado ritualisticamente as minhas sementes. Assim na terra como na vida, tudo o que planto tem a inspiração divina e muito amor. Plantei sonhos, carreira profissional, filhos. Agora planto outras sementes, todas de vida e de bênçãos. Estou adorando isso e aproveito para cultivar a paciência de esperar germinar. Afinal, tudo o que se planta na vida tem um tempo de plantio, de crescimento e de colheita. Sempre colhi o que plantei. Na minha horta não será diferente! Boto fé!

(Nem sempre dá certo o que a gente planeja, mas não se deve perder a esperança. Escrevi, mas deu pane no blog e não consegui postar. Voltei, insisti e aqui está o recado. A gente não deve desistir das semeaduras em que se acredita, dos sonhos que se tem, da confiança no que faz, na fé que tem em si, na vida e na proteção divina).

Adicionar comentário Quinta, 25 de Fevereiro de 2010 às 02:15 Vera Pinheiro

Semana agitada

Vera Pinheiro
Fiz um breve relato do início da minha semana a uma amiga e ela disse: “Cansei só de ouvir! Imagino como você está!”. Estou cansada mesmo nesta semana que começou agitada, sem contar a energia reinante no Distrito Federal, onde em 12 dias já tivemos três governadores e ainda não sabemos se haverá ou não intervenção federal.

Depois da madrugada de domingo, participei da reunião mensal do grupo de estudos da religião da Deusa de que participo. Com minha amiga/irmã Daniele Andrews pratico carona solidária e era a minha vez de ir com o tapetinho mágico. Dessa vez fomos por uma estrada que ela conhece e foi muito bom aprender um caminho novo.

O domingo estava muito quente, codelôco! Finda a reunião, corri para casa, cuidei dos animais, almocei, tomei banho, me arrumei de novo e voei ao encontro de um novo grupo, chamado de “As Sacerdotisas das Ervas” e liderado por outra amiga/irmã, Helena Maltez. Vamos estudar as propriedades mágicas, ritualísticas, gastronômicas etc. das plantas. É muito bom começar algo novo! É estimulante!

Ao retornar, a notícia do falecimento de Nelson, que foi meu vizinho do lado por um bom tempo. Já tarde da noite, fui com minha filha à casa da família, levar nossa solidariedade à esposa e filhos.

Segunda-feira de manhã, a volta ao trabalho foi uma agitação total. Estava quase na hora do enterro e eu não conseguia entrar no meu intervalo de almoço para ir ao cemitério. Cheguei lá nas orações finais e, muito comovida com a dor dos familiares, acompanhei o sepultamento.

Voei de volta ao serviço, mas sem almoço. Detesto lanche rápido substituindo refeições, mas era isso ou nada. Saí tarde e cheguei sem fôlego em casa. Não quis nada além de um banho e cama para dormir, mas estava tão cansada que foi difícil apagar. Dei um cochilo com a tevê ligada e acordei assustada com uma gritaria danada. Céus, o que é isso? Nada, não. Era uma confusão no Big Brother. Desliguei a tevê e meditei para poder dormir.

De manhã cedo, no dia seguinte, o café da manhã com Camila foi uma boa hora de conversa. Dali em diante, foi só correria até a noite. Fiz um pit stop no almoço com ela, para refazer do cansaço. E correria de novo! Ufa, quantos dias faltam para o fim de semana chegar?!

De noite, eu estava tão cansada que não quis saber de computador. Hoje de manhã – acordando às 6h – arrumei a casa, lavei roupa, cuidei dos animais, joguei água nas plantas e no carro (acho feio carro sujo) e… tchã-tchã-tchã-tchã… Cuidei da minha horta! È, agora eu tenho uma horta! Isso é um capítulo à parte, amanhã eu conto.

Casa, cama, mesa, banho, quatro cachorros, dois gatos, jardim, quintal e horta para cuidar, além de trabalho fora, como é que eu namoro?! Não namoro! E cansada como eu ando nesta semana agitada, vou confessar: se tivesse marido, eu deitaria bem devagar, na pontinha da cama, e dormiria de bunda virada a noite inteira! Bem quietinha, que para mais eu não dou conta!

Adicionar comentário Quarta, 24 de Fevereiro de 2010 às 11:11 Vera Pinheiro

Horário novo

Vera Pinheiro
O meu relógio biológico já estava acostumado ao horário de verão, então saltei da cama às 5h30, ainda noite escura, para chegar à casa de uma amiga minha sem atraso, duas horas depois, conforme o combinado. Fiz o de sempre, a rotina matinal, esperando o dia amanhecer, entre um e outro bocejo de preguiça no domingo.

Quase pronta para sair, liguei o celular e na caixa de mensagens, um recadinho dela: “Querida, não esqueça que o horário de verão termina hoje à meia noite. Atrase o relógio uma hora. Beijo. Dani”. Não me lembrei disso e acordei às 4h30, mas não foi tempo perdido. Hoje é a minha data no blog Poema Dia e postei lá o meu recado às 5h18. “Se eu morrer amanhã” é o título. Se não lerem lá (http://poemadia.blogspot.com) qualquer dia ponho aqui. Não foi feito hoje, mas em outra data, porque gosto de deixar crônicas e poesias maturando por um tempo, exceto essas conversas informais no blog, ao sabor dos acontecimentos cotidianos.

A minha amiga Daniele me conhece bem, sabia que eu me esqueceria de acertar os ponteiros, por isso mandou o recado antes que eu batesse no portão dela às 6h30, acordando até os cachorros que, aliás, não têm horário de verão. Acho que agora vou voltar para a cama e dormir mais cinco minutinhos. Não acertei os relógios do celular nem do computador, pois eles se atualizam automaticamente, eu acho. Se não for assim, estou, então, perdida mesmo no novo horário velho. Sei lá que horas são…

Vou confiar no galo da vizinha! Ele canta pontualmente às 6h. Cantou!

2 comentários Domingo, 21 de Fevereiro de 2010 às 06:00 Vera Pinheiro

Crônica da semana - Dias e noites do viver (*)

Vera Pinheiro
A vida se parece com o transcorrer do dia. Quando a gente está clareando, amanhecendo para a vida, tudo são luzes que se descortinam. Buscamos conhecer o novo, queremos notícias do mundo e do que está em volta. Há ansiedade por conhecer mais e por sanar questionamentos que não cessam, sem saber, ainda, que as respostas para as angústias do existir estão dentro, não fora de nós. Estão no íntimo do coração, na inteligência da mente, no aprendizado de cada dia inteiro, entre o amanhecer e o anoitecer.

A juventude não desaparece num repente, vai sossegando aos poucos, quase imperceptivelmente, e quando a existência avança para uma imaginária e incerta metade, a satisfação de viver é tão plena que não importa o vagar das horas. Há urgência, pressa em esgotar todas as chances. Tanto faz se amanhece ou se anoitece, cada amanhecer é um renascimento e anoitecemos com a perspectiva de um novo dia. A vida acontece de um jeito único, como se nunca alguém tivesse experimentado o que se mostra absolutamente inusitado porque desconhecido.

Depois do prazer das descobertas em minúcias, já não ansiamos em saber tanto, porém profundamente, e o sentido do que vivemos toma o lugar da intensidade. O dia passa com a vida, há uma ocasião adequada a cada diferente vivência, e crescemos até a vida começar a anoitecer. Vem, então, o tempo de perseguir e desvendar mistérios. O banal não é suficiente para abastecer o espírito e, enquanto convivemos com o declínio e as limitações do corpo, a consciência se expande. Buscamos a essência e abandonamos a superficialidade, queremos entender os significados e as razões. A percepção se aguça e nos capacita a recolher as sutilezas do viver e a grandeza das pessoas. Falamos com o coração, estando em silêncio, e silenciamos as dores, falando de emoções.

Valorizamos a quietude e damos novas definições para as palavras, os sentidos e as sensações. Longe não é distante. Ausência não implica afastamento. Olhar não significa ver. Ter não indica posse. Estar junto é possível mesmo quando não se está perto. Distância não é cúmplice do desamor. Ser é um atributo indispensável e solidão é uma circunstância que resolvemos sem tormentos. Reconhecemos os sentimentos na sua verdadeira dimensão, sem ilusões que turvam o entendimento e sem expectativas resultantes de sonhos irrealizáveis. A realidade, finalmente, se torna uma belíssima surpresa nesse turno existencial se fazemos as pazes com a história individual e ela nos compraz, independente dos maus momentos que atravessamos.

Porém, nada é totalmente fácil. O caminho tem pedras e da fé inabalável vem a força para erguê-las. No céu há nuvens e um vão de luz se abre entre elas para iluminar a confiança. O caminho é tortuoso e a sabedoria é a bússola que orienta, a mão que guia o destino. As perdas se acumulam e o amor, em sua imensa generosidade, engrandece a coragem. Tantas vezes os acontecimentos machucam a nossa sensibilidade, mas nos refazemos na fonte de nós mesmos, onde bebemos ânimo e saciamos a sede de felicidade, que não está além das fronteiras do que somos.

Entre o amanhecer e o anoitecer da vida podemos aprender a ternura que sacode a agressividade e a joga para longe; trocar carinho sem hesitação; pedir desculpas com sinceridade, não só para zerar a conta e começar de novo; encontrar serenidade para transpor situações que inquietam; manifestar gentileza e boa vontade, produzindo o milagre da presença que conforta, e materializar o toque amoroso de uma palavra que dissipa aborrecimentos. Acariciar as mágoas com afeto; desarmar a amargura que ergue escudos; promover a paz interior e ao redor; colocar sorriso no rosto, mesmo tendo vontade de chorar; partilhar o perdão e a compaixão; tecer laços, colando corações; tocar adiante planos e desejos; retomar o contentamento pelo que é singelo; adornar o dia com gestos de bondade; recobrar a alegria que, às vezes, foge; recuperar o encanto de viver e não deixá-lo escapar quando a tristeza se instala.

Devemos comparecer ao encontro marcado com a felicidade a cada dia que amanhece a fim de anoitecer com o gosto de se sentir realizado e para dormir o sono dos que souberam construir um oásis cotidiano entre os dias e as noites do viver.
(*) Crônica publicada na edição de 20 e 21 de fevereiro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

2 comentários Sábado, 20 de Fevereiro de 2010 às 07:59 Vera Pinheiro

Vivas para a sexta-feira!

Vera Pinheiro
- Hoje é o dia que mais apreciamos, né, não? Viva a sexta-feira!
Com esse entusiasmo, a moça que cuida da limpeza no meu serviço me recebeu no banheiro feminino, onde fui me maquiar, já que hoje puxei a vassourinha muito cedo de casa e não tive tempo nem de botar um rouge (não era assim que, antigamente, se chamava o blush?).
- Viva! Bom dia para nós! – respondi com alegria para ela que, todos os dias, tem um sorriso no rosto e uma palavra boa para mim. O bom humor de Dorinha se sustenta apesar de ela levantar antes das cinco horas da manhã para, indo a pé até a parada, pegar ônibus e chegar às 7h no trabalho.
- Que Deus nos perdoe!, emendou ela.
- Por que?
- Até parece que a gente não gosta de trabalhar…
- Não, querida, Deus sabe que a gente gosta de trabalhar – Ele está vendo! –, mas sabe também que a gente gosta de fazer outras coisas boas, como estar em casa com a família, passear, se divertir, cuidar dos bichinhos, além de precisar daquele tempo para botar a vida doméstica em ordem. Isso não tem nada a ver com ingratidão.
- É verdade. Deus sabe, sim. E a gente tem muita coisa para fazer em casa!, disse ela com ares de quem repassa a lista de tarefas a sua espera.
- Eu sei. É a tal jornada dupla, tripla de trabalho. Oito horas trabalhando fora e ao chegar em casa, tudo por fazer. Conheço bem essa rotina, e não é fácil!

Domésticas, executivas, qualquer profissional que não tem uma auxiliar para fazer a lida doméstica passa por isso. Se quiser roupa limpa, vai para o tanque ou para a máquina; se quiser louça limpa, mete a mão no detergente ou na máquina; se quiser a casa em ordem tem de arrumar ou não achará sequer as calcinhas. E se tiver animais precisa cuidar deles na chegada e na saída, alimentando-os e limpando seus dejetos. Meus gatos, por exemplo, fazem uma ciranda de coco e xixi quando chego em casa – parece que me esperam, e também por isso não gosto de atrasar o meu retorno.

E por não gostar de encontrar a casa revirada ao voltar, organizo tudo antes de sair, e nisso me revezo com minha filha. No geral, claro, pois cada uma cuida do que é pessoal. Onde mora mais de uma pessoa tem de funcionar o estilo “sujou, limpou”, “abriu, fechou”, “pegou, guardou”, senão sacrifica. A gente pode, de vez em quando, cobrir a tarefa de alguém, mas todos precisam ajudar na organização doméstica, ainda mais se trabalham fora. Costumo dar folga para as unhas pintadas de Camila no fim de semana, já que prefiro ir à manicura no início da semana. No “findi” gosto de mexer na terra, capinar, cuidar das plantinhas e tanto é assim que, do feriadão do carnaval, restam três machucados nos dedos. Nada demais, mas estou remendada de curativos. Minhas mãozinhas são delicadas, mas não sei trabalhar com luvas. Só as de pelica, para bater forte sem deixar marcar em quem merece… Apenas de vez em quando, claro.

Adicionar comentário Sexta, 19 de Fevereiro de 2010 às 09:44 Vera Pinheiro


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