Crônica da semana - A arte de dizer sim e não (*)
Sábado, 6 de Fevereiro de 2010 às 07:47 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 87
Vera Pinheiro
Devíamos dizer “sim” e “não” apenas quando temos convicção, não por sermos incitados por outras pessoas, para agradá-las ou por medo da reação que possam ter em relação ao que expressamos.
As consequências de nossas escolhas recaem primeiramente sobre nós, embora respinguem sobre os demais. Anuir com a opinião alheia merece uma avaliação prévia para que essa decisão não resulte em arrependimentos tardios e em queixumes sem solução. Concordar exige um mínimo de certeza ou, ao menos, expectativa confiante de que a sugestão apresentada é melhor do que aquela que elaboramos.
Porém, nem sempre é assim. Muitas vezes, dizemos “sim” quando não estamos certos de ser isso o que queremos e dizemos “não” por impulso. Pior ainda se não aprendemos a dizer “não” e sofremos por acatar sem sinceridade, no intuito de meramente escapar de conflitos. A dificuldade de exprimir nossas razões leva-nos a dar permissão para que usem e abusem de nossa disponibilidade, e não respeitando o próprio querer, terceirizamos o poder que temos sobre a nossa vida, transferindo o direito a qualquer um de fazer dela o que bem entender e à revelia de interesses pessoais que se guardam em nosso coração sem que se revelem.
A mulher que invariavelmente se curva ao homem amado para não contradizê-lo vira marionete em suas mãos e perde o respeito que lhe é devido. Se há amor, discordar não implica rupturas no relacionamento, pois um casal em harmonia busca o consenso que fortalece a união, sem imposições que massacram a individualidade. Quem ama troca ideias, compartilha, dialoga, não fixa regras a serem cumpridas unilateralmente e deseja a felicidade para ambos. Sabe ouvir, aceitar e se compromete com a satisfação que abrange o par, não somente um, renunciando ao egoísmo que mina o convívio e resulta em privações à liberdade do ser.
O profissional que cumpre seus compromissos deve conhecer as suas limitações e não assumir encargos que não possa atender por despreparo, acúmulo de tarefas, excessivo cansaço ou receio de que um “não” possa significar resistência ao serviço. Fazer bem, da melhor forma possível, todo o trabalho que lhe é confiado mostra empenho, dedicação e responsabilidade, mas ao ultrapassar as forças físicas e a capacidade intelectual, o desgaste gera a indesejável queda da produção com qualidade, que malogra as boas intenções. Dizer “não posso”, “não sei”, “não entendi” não é humilhação e é menos aviltante do que sobrecarregar-se de tarefas que não tem condições de executar, embora prometa.
Os pais que dizem “sim” a tudo o que os filhos pedem criam verdadeiros déspotas dentro de casa, que não saberão enfrentar o mundo que não faz cerimônia para forçar o “não” que deixaram de ouvir, não raro punindo-os severamente por não saberem lidar com limites. Pais e mães se debatem entre consentir e negar, mas aprendem a superar essa angústia e vencem os desafios da intimidade familiar. Se a dúvida quanto a evitar ou produzir traumas pela negação é grande, muito maior será o sofrimento paterno e materno ao perceberem, mais tarde, que os filhos não sabem lidar com frustrações, e elas ensinam a crescer.
Quem não tem consciência de que precisa estar plenamente convencido de suas resoluções entrega o seu caminho para que outro o faça, que por si escolha, decida, resolva. Feito isso, não adiantam reclamações posteriores, de pouca serventia, de que teve a sua privacidade invadida e a liberdade de agir tolhida. Para não perder a estima de alguém, para não promover desapontamentos ou para esquivar-se de causar aborrecimentos há quem, sem questionar, se submeta a qualquer situação, mesmo as insuportáveis, e concorde apesar da voz interior dissidente, mas calada.
É fundamental não enganar a si e aos outros sobre a sua vontade, seus valores e princípios, e as palavras devem ser a exata representação do pensamento, desviando-as da contradição entre o dito e o feito. Uma grande afeição sobrevive a divergências, porém sucumbe diante da incompreensão e da mentira. Um sentimento acaba se não estiver enraizado, não se perde com a expressão que vem do fundo do desejo. Um “sim” impensado é tão grave quanto um “não” sufocado: abrem um abismo entre nós e a felicidade, a realização e o prazer. Nesses casos, a opção razoável é um “talvez”.
(*) Crônica publicada na edição de 6 e 7 de fevereiro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.
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