Som na caixa
Domingo, 7 de Fevereiro de 2010 às 11:55 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 63
Vera Pinheiro
Uma vez por semana, uma moça vem à minha casa fazer faxina. É simpática, discreta, boa de serviço e de pouca conversa. Só abre a boca quando nos sentamos à mesa. Dela só não aprecio o gosto musical. Aos sábados, porque ela está aqui, ouço música sertaneja das 7h às 17h, e o ritmo se alterna com um pancadão de doer os meus delicados ouvidos, mas fico absorta em outra atividade e sublimo!
Ontem, depois que ela foi embora, continuei entretida no que estava fazendo e somente depois de algumas horas percebi que o rádio gritava no mesmo compasso sertanejo/pancadão. Ao me dar conta, troquei o som da caixa por uma música relaxante, daquelas que eu adoro e que elevam o espírito. Ah, que alívio!
Curioso como a gente não se dá conta do que está vivendo sem gostar até livrar-se disso. Enquanto está dentro, não percebe. O alívio vem depois da libertação. Quantas vezes nós estamos tão envolvidos por uma situação que não imaginamos como seria sem ela. Era ruim demais, mas a gente não sabia que era tanto. Então, é preciso ver claramente a circunstância, se ela agrada ou desgosta, e não se conformar se de algum modo nos perturba ao ponto do insuportável. Buscar o melhor exige coragem e determinação e uma resposta sincera: o que pode ser pior do que isso?
No caso da faxineira, avalio a parte boa e a nem tanto, o que importa e o que não vale a pena mexer, o que compensa e o que posso aguentar. Ah, um dia de música de que não gosto não me aborrece tanto e é muito menos do que a alegria de ver a minha casa arrumada e limpinha, contando com uma pessoa de confiança. Algumas coisas são mesmo insuportáveis, outras, não. Certas situações a gente releva; outras, não. Quando bate em nossos limites e não há possibilidade de contornar, aí então é hora de mudar, cair fora, resolver o que nos aborrece. E de nossos limites somente nós mesmos sabemos.
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