A horta O jardineiro e a doméstica

Crônica da semana - Insatisfação (*)

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010 às 08:29 Vera Pinheiro  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 101

Vera Pinheiro
Insatisfação não acontece da noite para o dia, ela mina a vida aos poucos, por isso quase não percebemos os danos que ela produz. Muitas vezes é confundida com um desagrado passageiro por real motivação, e pensamos que é possível superá-la. Insistimos em dar-lhe uma justificativa plausível e atribuímos sua causa a um desconforto vinculado a fato diverso ou a situações que não resolvemos, fechando os olhos para a sua importância e negando a sua identidade intrínseca. Não damos muita atenção a aborrecimentos cotidianos repetidos, achamos que fazem parte da nossa história e contemplamos somente os aspectos felizes dos acontecimentos. Passamos por cima do desprazer e o menosprezamos, até que ele se torna insuportável e exige uma tomada de posição.

Nem sempre temos coragem de encarar a reiterada e constante falta de deleite, porque, quando constatada e assumida, ela nos impõe uma reação e, se não reagimos, enveredamos pelas sendas do conformismo, da alienação e da sucumbência moral ao que a provoca. Não solucionar as razões da insatisfação nos carimba como pessoas fracas diante de nós mesmos, e somos nossos juízes mais severos.

Mantemos relacionamentos insatisfatórios por medo da solidão ou por nos considerarmos responsáveis pela felicidade dos que estão conosco, ainda que nos amargurem. O sentimento de culpa fala mais alto do que a voz interior que manda interromper a relação no ponto em que está. Não queremos que nos acusem de sermos negligentes com os outros e nos atribuímos o encargo de zelar pelo contentamento alheio, o que se agrava se algum tipo de chantagem emocional trava soluções inadiáveis.

Temendo que a iniciativa da ruptura resulte em consequências nefastas para outra pessoa, engolimos a infelicidade que sentimos. Assusta-nos a repercussão de uma decisão que envolve alguém, além de nós, então adiamos a necessidade de providências para uma ocasião que seja propícia, mas que pode nunca chegar, esquecendo-nos do compromisso individual e intransferível de cuidar do próprio destino. Não raro, nos sentimos presos a promessas feitas no passado, quando éramos felizes, embora sem garantia de que os juramentos seriam cumpridos por toda a eternidade ou enquanto vivêssemos lado a lado, como um par. Estamos, sim, muito insatisfeitos, mas nos é custoso sentenciar o final da convivência e, no íntimo de nossas elucubrações sentimentais, nos rendemos à máxima “ruim com, pior sem”, e não arriscamos a fazer uma mudança desse status de desventura.

Acabar com uma vinculação profissional que não nos agrada é bastante difícil também, porque entram em jogo as questões de mantença e sobrevivência material, que pesam na análise, derrocando a busca de satisfação que o trabalho deve render, associado ao que remunera. Assim, apesar de insatisfeitos, nos esforçamos por conservar um emprego que não é aquilo que sonhamos para um terço das horas de cada dia. A vida se esvai em tarefas que não nos realizam, mas avaliamos demasiadamente o perigo de uma demissão e o reflexo que pode ter no padrão de vida a que nos acostumamos. Sobrevém a ilusão de que um bom salário paga a insatisfação, o que passa longe dos propósitos de compensação do espírito, que deve estar aliado ao pagamento pelo serviço que prestamos. Ocorre uma sucessão de dias em que contamos as horas para que chegue logo o fim de semana, e isso é tão avesso à satisfação quanto fazer do trabalho um meio de escapar do trato diário com quem priva de nossa intimidade.

Insatisfação é um pedido de socorro que advém das profundidades de nosso ser e não pode ser desmoralizado e ignorado. É um desgosto que precisa ser examinado em toda a sua extensão para medir o desgaste sofrido por viver em função do que não traz alegria. Ficar junto de quem não preenche a existência com bem estar é tentar, em vão, ocupar espaço vazio que devia ser recheado de plenitude. Não se desvincular de atividades que oprimem é passar recibo de incompetência para gerenciar habilidades, associada ao receio de não se achar tão apto quanto gostaria. Nós nos enfraquecemos cada vez que negamos nossos sentimentos em relação ao que vivemos e nos fortalecemos quando ousamos crer que podemos ser tão felizes quanto julgamos merecer. As insatisfações falam disso.
(*) Crônica publicada na edição de 27 e 28 de fevereiro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

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