Parabéns, minha filha! Dia da Mulher

Crônica da semana - Reclamações masculinas (*)

Domingo, 7 de Março de 2010 às 02:06 Vera Pinheiro  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 233

Vera Pinheiro
Das tarefas que, pessoalmente, entendo como masculinas uma delas ainda não aprendi: trocar pneu. Falta-me habilidade, mais do que força, que me sobra. A vida imprimiu robustez aos braços e vigor ao meu espírito. Fiquei pronta para enfrentar os desafios do mundo como se fossem plumas! E justamente por ser mulher, disponho da energia extra que vem das entranhas, da alma que se alterna entre batalhadora e suave, entre ousada e delicada, um fio de navalha que corta as dificuldades do meu caminho feminino, mas que precisa ser muito bem administrado.

Depois de muito tempo de uso, nesta semana um pneu furou e fiquei sem carro até pedir ajuda a um homem, pagando pelo serviço. Levei a peça a uma borracharia, onde outro homem me atendeu. Logo ao chegar, sem titubear, abri a tampa do porta-malas e retirei o pneu que devia ser consertado, e ainda não entendi como um prego entrou nele.

O borracheiro, estupefato, não teve tempo de vir em meu auxílio. Deu o preço e garantiu que em menos de meia hora faria o trabalho, e aproveitei para fazer uns pagamentos. Quando voltei, ele pulou na minha frente e se antecipou em retirar o estepe da rodagem, guardá-lo e substituí-lo pelo pneu consertado. Antes disso, retirou com cuidado algumas sacolas que estavam na parte traseira do veículo e recolocou tudo de forma organizada. Eu, de braços cruzados, apreciava a inesperada ajuda.
- As mulheres não estão mais acostumadas a gentilezas.
Olhei para um lado, olhei para o outro e, cá comigo, pensei: “Ele está falando comigo?”.
Sim, o homem estava me passando uma repreensão por não tê-lo deixado me ajudar, quando lá cheguei.
- Ah, meus sais! Um pito nessa hora (espremida no intervalo do almoço)… Será que eu mereço?!
- As mulheres esquecem que os homens gostam de ser cavalheiros e não dão espaço para nós. Elas querem fazer tudo!, protestou o borracheiro.

O que faço? Bato boca com o sujeito em defesa das mulheres, argumentando as nossas razões para termos nos tornado assim ou vou embora sem dizer nada? Ele continuava falando e a platéia masculina em torno começou a entusiasmar-se com o discurso.
- É mesmo! Concordo! – disse outro, de aparência jovem, menos de 30 anos.
- As mulheres assumiram muitos postos e são competentes, mas se esqueceram de ser o que são: mulheres! – acrescentou um terceiro, todo engravatado, supostamente na faixa dos 40 e alguns.
- Eu admiro as mulheres, mas tenho a impressão de que nenhuma quer ser admirada. (Esta veio de um que tinha duas alianças no dedo anelar esquerdo, o que sugeria estado de viuvez).
- As mulheres deviam permitir que os homens as cuidassem! – emendou um moço loiro e alto, quase bonito, metido numa camiseta preta que delineava o corpo bem malhado.
Entrei no carro e bati a porta. De volta ao serviço, as frases daqueles homens não me saíam da cabeça. De certa forma, eles têm razão, mas não admiti.

Lembrei de várias vezes em que tomei atitudes e providências masculinas, mesmo não estando sozinha. Recordei de um bom amigo que reclamou quando abri uma garrafa de vinho, não lhe dando chance de me servir. Avaliei as circunstâncias em que poderia ter recostado num abraço e chorado num ombro masculino, mas fingi não sentir a dor rasgando o coração. Recordei de todos os embates que tive com homens que foram meus colegas, chefes, subordinados, e veio uma ponta de saudade dos homens a quem amei e perdi. Revivi todas as cenas em que me virei sozinha para não depender de nenhum deles, quando me fiz de fortaleza e os dispensei.

Não esqueci de ser mulher (aliás, me adoro assim!), mas aprendi a me superar na ausência um homem. Apenas sinto falta na hora de trocar pneu e para compartir felicidade, já que as tristezas eu resolvo! Pena que nenhum deles acredita nisso…
(*) Crônica publicada na edição de 6 e 7 de março de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

Publicação arquivada em: Coisas da vida

Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 234

7 Comentários Faça seu próprio

  • 1. Clébio Júnior  |  8 de Março de 2010 às 15:41

    Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno, é o que costumo dizer.

    Po´rem o que vou afirmar adiante ainda considero uma teoria.

    O homem carece de uma identidade, de uma razão de existir. Enquanto vemos mulheres sendo exaltadas por serem exemplos de superação vemos homens que fazem coisas parecidas e lhes dizem que não estão fazendo mais do que a obrigação.

    O homem carece de afirmação num mundo moderno que o trata como um ser vil e grosseiro. O gesto do mecãnico reflete isso. Do jeito que ele quis ser gentil me pareceu que ele o fez mais com medo de uma suposta cobrança vinda da consciência do tipo “Por que você não a ajudou? Seu mal educado!”. Não que realmente fosse haver uma cobrança, mas ele espera alguma vinda do desconhecido.

    Enfim, poderíamos nos debruçar sobre elucubrações deste tipo por dias a fio, podendo inclusive elaborar livros teses e estudos mil sem a certeza de chegar a conclusões concretas.

    Abraços e parabéns pelo seu dia.

  • 2. POLIANA CRISTINA MOURA  |  10 de Março de 2010 às 11:20

    SEU BLOG É MUITO INTERESSANTE,ESCREVA ALGO SOBRE A CLASSE QUE TRABALHA COM OS DENTISTAS,AQUELAS PESSOAS QUE ESTÃO FAZENDO O MÁXIMO PARA QUE O SEU ATENDIMENTO SAIA OTIMO ….,SOMOS AUXILIARES E TECNICAS DE SAUDE BUCAL…

  • 3. Vera Pinheiro  |  10 de Março de 2010 às 20:42

    Clébio Júnior, obrigada pelo comentário e pelo carinho. É muito bom ouvir a opinião masculina.
    Um beijo,
    Vera

  • 4. Vera Pinheiro  |  10 de Março de 2010 às 20:43

    Querida Poliana, agradeço a sugestão, que acolho com meu coração. Aguarda. Em breve, aqui no blog o assunto.
    Beijos.
    Vera

  • 5. Vera Pinheiro  |  11 de Março de 2010 às 08:06

    Poliana, confere o post de hoje - 11 de março - “O dentista e a sua auxiliar”. Agradeço, mais uma vez, a sugestão do tema, que me deu oportunidade de falar de dois profissionais que admiro,
    Um beijo e meu carinho.
    Vera Pinheiro

  • 6. Renato Perillo  |  10 de Maio de 2010 às 20:02

    Vera, recebi sua crônica via uma amiga.
    Tenho algumas coisas a te dizer. Tenho 48 anos, sou bem resolvido emocionalmente e te digo que, na minha opinião, as mulheres estão realmente esquecidas do seu feminino. Eu que tenho o meu lado feminino razoavelmente ativo, reflito sobre isso há muito tempo. Tem uma questão que é muito pouco dita e veiculada mas é o que mais atraem um homem numa mulher. Trata-se do seu ‘recato’. Por ‘recato’ entendo a capacidade feminina de silenciar e de, ativa e perspicazmente, adotar a não-ação. Com isso, ela possibilita a ação ao homem que stá ao seu lado. A ação dafala, do cuidado, do servir e do fazer. Ações que podem se desdobrar em pagar, pegar, beijar, morder, chupar e comer gostoso sua garota. O homem é ação, a mulher é recato, reflexão, acolhimento.
    Muito raramente um ser humano perceberá isso. Independente dos sexos, a desconexão é enorme e vive-se no passado das culpas ou no futuro das preocupações. O presente com o real papel de cada um nas circusntâncias da vida passa desapercebido pelos queixos caídos face à tele-vidão nossa d ecada dia entupidos de tralhas na alma e nos lares….

  • 7. Vera Pinheiro  |  11 de Maio de 2010 às 08:03

    Agradeço a tua mensagem, Renato. Um abraço. Vera

Deixe um Comentário

Requerido

Requerido,escondido

Linkar esta publicação  |  Assine os comentários via o RSS


Calendário

Março 2010
S T Q Q S S D
« Fev   Abr »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Minhas Publicações Recentes

Publicações por Mês

Estatísticas

Meta